8 Junho 2016      13:16

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O FUNDO DE UM MAR NUNCA NAVEGADO

"CIÊNCIA NA SUA VIDA"

“O Mundo dá muitas voltas…”. Voltas sobre si mesmo, voltas em torno do sol e outras voltas, entre revoltas. Altera amiúde a sua face. Enruga-se aqui, estira-se acolá…Transformam-se montanhas em planícies, aparecem e desaparecem oceanos, esbatem-se cores, surgem novas formas. Ao longo dos seus 4600 milhões de anos o nosso planeta tem mudado, permanentemente, a sua superfície. É difícil, para nós, percebermos essa mudança pois os fenómenos geológicos são extremamente lentos….Para erguer uma montanha são necessários milhões de anos, para se formar uma rocha, podem ser milhares. Conseguimos apenas ver e sentir que o nosso planeta está animado de atividade quando ocorrem fenómenos como o vulcanismo ou quando um sismo nos sacode o corpo e acorda o pensamento para essa realidade.

Mas a verdade é que, embora as alterações sejam quase impercetíveis, os nossos “sítios do costume” vão mudando, ano após ano. Um desses lugares é a zona costeira do Almograve, um sítio privilegiada por ter estruturas geológicas muito interessantes. Conseguimos visualizar, entre a Foz dos Ouriços e o porto de pesca da Lapa das Pombas, diversas zonas de rochas dobradas, tanto junto à praia como nas arribas.

O facto de existirem rochas (tão sólidas e resistentes à deformação), dobradas, sempre foi intrigante para aqueles que se questionam acerca do que os rodeia.

As rochas, que hoje emolduram as praias do Almograve, também já deram muitas voltas…

Começaram por ser pequenos grãos de argila e de areia que se foram acumulando no fundo de um mar que terá existido há cerca de 300 milhões de anos (muito antes dos primeiros Homens terem surgido na Terra).

A pressão exercida pela sobreposição de diversas camadas de sedimentos (argilas, areias), bem como a existência de substâncias que agregaram e cimentaram os grãos soltos originaram a litificação das camadas subjacentes, ou seja, a sua transformação em rocha sólida, neste caso, xistos e grauvaques.

Quando grandes quantidades de sedimentos são depositadas numa região, como foi o caso, o peso dessa imensa massa pode causar o afundamento das rochas que ficam situadas na base da acumulação, remetendo-as para zonas mais profundas da crosta terrestre. Foi desta forma que, as rochas que hoje avistamos na zona costeira do Almograve foram, depois de se terem formado, expostas a condições de grande pressão e temperatura (recordemos que se verifica o aumento de 20ºC a 30ºC por cada Km percorrido para o interior da crosta terrestre).

Depois de terem deixado de ser o fundo de um mar, começando a integrar zonas mais profundas da crosta, estas rochas mudaram o seu estado físico. Sob o efeito de altas temperaturas, passaram a ter uma consistência maleável. Foram, então, sujeitas a movimentos compressivos, consequentes das forças geradas pela alteração de posição das placas litosféricas, esses gigantescos blocos que têm mudado a sua localização (por diversas vezes) ao longo da História da Terra. Essas forças compressivas foram as que originaram as dobras que se visualizam atualmente na zona do Almograve (e noutros locais do sudoeste alentejano como na Praia do Malhão, Cabo Sardão, Zambujeira).

As “voltas” dadas por estas rochas não pararam por aqui…

Depois de terem sido afundadas e dobradas, no interior da crosta terreste, foram novamente elevadas, até à superfície da Terra, ocupando o lugar em que atualmente as avistamos.

 Este soerguimento foi conseguido a expensas de um fenómeno que acontece no nosso planeta denominado isostasia. É este o termo utilizado em Geologia para nos referirmos ao estado de equilíbrio entre a litosfera (camada sólida mais externa da crosta terrestre) e a astenosfera (camada mais viscosa situada abaixo da litosfera).

Tal equilíbrio implica que um aumento do peso nas placas litosféricas (por deposição de sedimentos, por exemplo) leva ao seu afundamento, ocorrendo, inversamente, uma subida, quando o peso diminui.

No caso destas interessantes formações rochosas, o facto de terem sido aliviadas da carga que suportavam (outras rochas que lhes estavam suprajacentes) possibilitou o seu lento movimento de ascensão até à superfície. Foi a erosão das rochas que encimavam a formação que desencadeou a subida das rochas que se encontravam mais abaixo, sempre em busca do equilíbrio…

Hoje, quando olhamos para as rochas da zona costeira do Almograve, que parecem tão estáticas e imutáveis dificilmente deduzimos que estas formações já deram tantas “voltas” ao longo da história do nosso planeta. Até já foram o fundo de um mar…Um mar muito, muito antigo. E nunca navegado.

 

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