15 Julho 2017      12:45

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O CAMINHO DA FORMIGUINHA

"PARALELO 39N"

Era uma vez uma formiguinha. Não, duas. Uma formiguinha e outra formiguinha. Detestavam-se uma à outra. Não se podiam ver. Aquilo que sabiam uma da outra era que não havia nada de interessante em ambas que pudesse mudar a opinião das congéneres. Eram duas simples formiguinhas, tão iguais a todas as outras que eram iguais a estas. Pretas, com grande rabo, tenazes no focinho e duas pequenas antenas.

Lá andavam no trabalho diário como andam todas as formiguinhas. No caminho das formiguinhas, em carreiro, como andam todas as formiguinhas. Umas para lá, outras para cá. Andavam a direito, nunca faziam atalhos. Aliás, bem visto, não sabiam o que eram atalhos. As formiguinhas sabiam uma coisa só. Era que as instruções recebidas por telepatia, vindas da rainha lá do palácio formigueiro eram concretas. Andar em linha, ou na linha, recolher a semente, muitas vezes maiores que elas próprias e não ter cá amizades ou paixões pelas outras formiguinhas. O trabalho era o rendimento e as enxurradas de inverno estariam a chegar, em breve.

E nisto andavam as formiguinhas, detestando-se umas às outras. Sem que soubessem bem que sentimento era esse, evitavam olhares. Conheciam esses olhares. Sabiam da tenacidade dos seus minúsculos olhos e como essas afetariam andar na linha. A formiguinha A detestava a formiguinha B e a C, que não conhecia nem uma nem outra, ouvia os desabafos da D que, por sua vez detestava a E, sem a conhecer. Era uma sociedade complexa. Tão complexa que a rainha, lá no trono pensou o que havia de fazer. Aquele ambiente, embora lhe conviesse, tornara-se tóxico e abrandava o passo das formiguinhas.

Era necessário fazer alguma coisa e como era a única cujos circuitos dos neurónios acompanhavam os impulsos elétricos ou lá o que isso quer dizer, decidiu que, em vez de as formigas se detestarem por ordem alfabética, passariam a ter números e assim, a 1 amaria a 3 mas detestaria a 2 à mesma, para não andarem com conversas. A 2 gostaria muito da 4 e assim sucessivamente. Ímpar e par estão a ver? O que é que isto fazia? Ora bem, que as formigas andassem mais depressa para chegar à paixão, mas não conseguiam lá chegar porque a formiguinha que estava à sua frente não as topava.

Era o esquema perfeito, pensou a rainha nos seus impulsos elétricos que faziam furor na sua cabeça. Em breve, teria o armazém cheio de sementinhas e as formiguinhas, sem o saberem continuariam a ser enganadas como até aí. De maneira diferente mas a filosofia subjacente era a mesma. Havia de resultar. Tinha tudo para resultar.

Tudo pronto, aplicou a telepatia que lhe saíam pelas antenas. As suas eram, aliás, maiores do que as outras todas e as formiguinhas assim receberam aquele impulso, vindo pelo ar, não se sabe bem de onde. Ou, pelo menos elas não sabiam. Eu sei e vocês também porque agora já vos contei e deixou de ser segredo. Era como o micro-ondas. Não se vê mas aquece. As antenas ficaram quentes, sim senhor. E lá começaram as formiguinhas, com as hormonas aos saltos, coisa que não sabiam o que era, divididas entre o amor e o ódio, entre a paixão e a coisa mais temerosa que era o ódio.

E foi neste momento que o plano da rainha foi por água abaixo, sem que tivesse ainda começado a chover… Ora a formiga 1, odiando a 2 e loucamente apaixonada pela 3, saltou em cima da mais próxima para chegar à outra e isto foi como se fosse um dominó. Acabaram-se as sementes, acabou-se a ordem. Foi o caos. Nem uma semente entrou. Começaram todas a ficar nervosas com a loucura que ali ia e, à beira de um ataque de nervos, a rainha ainda tentou em vão, enviar as ordens por telepatia. Insuficiente. A frustração era tanta que acabaram por sair ordens desconexas e acabou o formigueiro todo ao molho, desvairadas a chocarem umas com as outras. Antenas partidas, sementes espalhadas. Enfim, uma anarquia.

Moral da história: bem, isso deixo à vossa consideração. Já contei a narrativa. O resto é convosco. 

 

Imagem de ciclodiferente.blogspot.pt

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