17 Julho 2016      13:01

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NÃO POSSO E NÃO QUERO SER NICE

"INCONSTÂNCIAS"

É verdade que a cada semana uma nova onda de terror nos assola. Também é verdade que a nossa solidariedade para com as vítimas se faz notar, principalmente nos dias seguintes (principalmente até nos voltarmos a esquecer), em ondas de estupefacção, pedidos de cessar-fogo ou na justa e sempre muito eficaz promessa de violência para com os violentos. – Note-se que, devido a essas promessas e a essa vontade de olho por olho, o mundo é um local realmente mais pacífico hoje.

No entanto, caro leitor, a maior verdade é não só o nosso virar de costas mas o assunto ao qual viramos costas. A verdade, ou digamos as razões (pois falar de verdade é sempre arriscado e falacioso) é que nós, neste ocidente civilizado e organizado, livre de bestas e animais, evoluídos, primatas dos primatas por excelência que hoje já ignoram um dia ter sido primatas, é que tomámos o gosto á hipocrisia como se toma o gosto a uma cerveja gelada no Verão. Ao início é uma maravilha mas quando passamos ao estado ébrio somos uns idiotas que ninguém consegue aturar. Uns idiotas que podem até não ferir ninguém mas que por tão idiotas também não compreendem quem são os que ferem e muito menos têm a capacidade de fazer algo relativamente a isso. O que é que eu quero dizer, caro leitor? Quero dizer que hoje eu não me levanto por Nice. Hoje je ne suis pas Nice. Hoje eu quero mais que Nice e todos os restantes compreendam que o mundo não é o Ocidente e que Nice não é Nice mas são os familiares daqueles que morreram. São as esposas que perderam os maridos, os pais que perderam os filhos, as pessoas que perderam a vida. Atente, caro leitor, tudo se resume a isto: as pessoas, os seres humanos, que perderam a vida. E pessoas somos todos os que moram neste mundo sejamos de que raça, etnia, religião, orientação sexual formos. Hoje não sou Nice porque Nice é um movimento mediático e não o respeito pela dor e pelo sofrimento. Hoje não sou Nice porque na semana passada Nice não foi Bagdade. Não foi Istambul. Nice, como o restante Ocidente nunca soube ser o Oriente porque o Oriente é onde estão as bestas e os animais, os violentos e os rufias, os malucos e “aqueles escuros de pele que aquilo até parece sujo”. O Ocidente nunca soube ser Oriente a não ser quando precisou de atacar o Oriente para dele lucrar.

Vestimos o aparato dos Media como se os Media fossem o supra-sumo da realidade – confiamos-lhes os nossos olhos e a nossa boca e os nossos juízos de valor e a nossa capacidade pensar – e depressa apontamos dedos ao Islamismo, pouco sabendo acerca do Islamismo, aos refugiados, não sabendo como era a vida daquelas pessoas, às burcas, porque podem esconder os perigos de uma explosão. Apontamos dedos a tudo aquilo a que nos dizem para apontarmos dedos e preferimos ignorar que aqui, no Ocidente, onde somos o auge da civilização morrem pessoas todos os dias por abuso de poder policial, por preconceito racial, por misoginia e homofobia. Caro leitor, a maldade adquiriu a sofisticação certa e suficiente para não ser considerada terrorismo aqui, mas isso não faz com que ela seja menos terrorismo do que o de lá. E esse terrorismo sofisticado não é mais senão a ganância daqueles que um dia se lembraram de o convencer que precisa de pagar para viver neste mundo, que precisa de pagar para viver num mundo que não é de ninguém. Não são senão as normas e regras que lhe impuseram por medo de que um ser invisível no céu o condene a arder infinitamente. Não é senão um terrorismo mais letal porque mais silencioso e organizado, um terrorismo mais inteligente que opera enquanto os Media lhe dizem a quem deve temer, quem deve odiar, por quais se deve levantar quando algum atentado acontece.

Hoje não me levanto por Nice porque Nice é também ele culpado do atentado sofrido mas, como bom hipócrita ocidental, dele lava as suas mãos descredibilizando os 125 mortos e 147 feridos do atentado de Bagdade ou os 43 mortos e 250 feridos do atentado de Istambul. Não me condene tão depressa nesse inferno que o seu ser invisível criou para si porque digo que Nice é também ele culpado: compreenda antes que, no momento vivido, a nossa culpa reside no nosso elitismo exacerbado, nessa mania inútil de fingirmos que somos os bons enquanto bombardeamos as suas terras porque o petróleo é uma fonte de riqueza, ou simplesmente porque queremos afirmar que é deste lado que está o poder. Hoje não sou Nice porque não sou pelo poder, sou pela vida - e toda a vida é uma vida.

Caro leitor, já não existe a escassez de informação que poderia possibilitar a tamanha ignorância que é crer que o Islamismo é mau mas o Cristianismo é bom. Que o caucasiano é honesto mas o preto é ladrão (sim, preto, porque é preto que ele é e não há qualquer vergonha ou embaraço nisso!), que o heterossexual é casto e recto mas o homossexual é um pedófilo em ascensão. Já não existe uma razão que justifique a nossa categorização preconceituosa e irreal do mundo em que vivemos a não ser a nossa maldade sofisticada e a nossa ignorância hipócrita.

Hoje não sou Nice porque me recuso a compactuar com a bestialidade e a crueldade que é escolher que vida tem mais valor, com a pobreza espírita que é a alimentação gratuita dos Media de uma tragédia real apenas para os familiares, porque me recuso a ser mais uma hipócrita que ignora o mal que todos fazemos e para o qual todos contribuímos.

Hoje não posso e não quero ser Nice – eu pertenço ao mundo e não a uma facção.

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