21 Junho 2016      11:36

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NÃO HÁ PESSEGUEIROS NA ILHA

Lembro-me de a avistar, em miúda, com um tamanho de tal forma distorcido pela distância, que parecia caber-me na mão.

A Ilha do Pessegueiro não fazia parte das rotas de quem ditava os rumos da minha vida. Cresci a vislumbra-la à lonjura que a separa de Porto Covo.

Teria já sete, oito anos, quando, num dia memorável, fui pela primeira vez à Praia da Ilha. Consegui, finalmente, perceber o tamanho real daquele rochedo que dista poucas centenas de metros do areal. Senti, nesse dia, o aroma adocicado da felicidade misturado com sulfureto de dimetilo (o composto químico libertado por bactérias marinhas que origina o cheiro a maresia). Como todos os dias que me cheiraram a felicidade este é inesquecível…

Foi bem mais tarde que, entre os risos e a estroinice do final da adolescência, pisei pela primeira vez aquele rochedo que sempre me encantou. Fui de barco com amigos (uns que ficaram retidos nas malhas do tempo e outros que partilham aventuras comigo até hoje). Conduzida por um amor que me ensinou tanto sobre o mar como sobre o valor da lealdade, aportei pela primeira vez na ilha e esta pareceu-me ainda maior do que a imaginara.

Vi de perto os ninhos das gralhas de nuca cinzenta (Corvus monedula), construídos nas frestas das rochas, por estas aves, cujo comportamento gregário (tendência para viver em grupo) faz ecoar a grandes distâncias, a melodia metálica que resulta do seu ruidoso grasnar coletivo.

Sempre as avistei em bandos negros, a sobrevoar Porto Covo, alimentando-se de sementes nos campos que rodeavam a aldeia ou, como omnívoras que são, buscando pequenos invertebrados, frutos e carne em decomposição.

Monogâmicas, como grande parte das aves, as gralhas acasalam mantendo o seu par durante toda a vida.

Foi interessante ver, cada um dos membros do casal a cuidar, alternadamente, dos filhotes, no ninho, enquanto o outro partia em busca de comida.

Apesar de não serem raras no nosso país, as gralhas de nuca cinzenta encontram-se, predominante, no litoral, entre o sul de Sines e Sagres.

Foi também na Ilha do Pessegueiro que descobri os maiores ouriços-do-mar (Paracentrotus lividus) que já observei. Estes animais sempre me intrigaram pela peculiaridade da sua morfologia e do seu comportamento. Conseguem escavar buracos em rochas de dureza assinalável usando os cinco dentes que possuem na parte de baixo do seu corpo. Constroem estas cavidades para se protegerem do forte hidrodinamismo (ação das ondas) e dos seus predadores (homens, peixes e estrelas do mar).

As suas gónadas, mais conhecidas por “ovas”, são estruturas que produzem as células sexuais destes animais e são equivalentes aos testículos dos machos e aos ovários das fêmeas. Ocupam a maior parte do interior do corpo dos ouriços-do-mar e são muito usadas na gastronomia dos países da zona do Mediterrâneo (França, Itália, Grécia).

No sudoeste alentejano são comidas, depois de serem assados em fogueiras de caruma ou tojo, na altura do equinócio da primavera, quando as marés são muito amplas e permitem um acesso mais fácil às plataformas rochosas onde se encontram os ouriços do mar.

Há, na ilha, outros animais muito apreciados pelas suas características organolépticas. Pertencem à família dos crustáceos, tal como os caranguejos e as lagostas, mas são muito diferentes dos seus “familiares”. Tão diferentes que muitas pessoas nem sabem que são animais. São sésseis, ou seja, vivem a maior parte da sua vida adulta fixados numa rocha, em grandes cachos. São os percebes.

O corpo dos percebes (Pollicipes pollicipes) tem duas partes distintas: uma unha constituída por pequenas placas calcárias e o pedúnculo, a parte que se come.

Os percebes são hermafroditas, o que significa que cada animal tem o sexo feminino e o sexo masculino no mesmo corpo. Reproduzem-se através pequenos ovos que, após eclodirem, libertam minúsculas larvas. Estas larvas passam algum tempo à deriva no mar, passado por vários formas até se fixarem numa rocha e começarem a crescer.

Há dezenas de espécies de animais na Ilha do Pessegueiro mas, naquela tarde de início de verão, em tempos já muito remotos, foram estas as que mais me impressionaram.

Desde então, comecei a aprender que, apesar de não existirem pessegueiros na ilha, há uma notável biodiversidade, no presente e do passado, que urge divulgar e preservar, pela sua unicidade e valor.

 

Imagem de capa de Maria Ana Campos, no espalhafactos.com

 

 

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