23 Fevereiro 2021      10:19

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Moradores contra ruído para espantar aves dos amendoais alentejanos

Os proprietários dos amendoais no Alentejo, nomeadamente no Alqueva, recorrem a tiros de pólvora seca para afugentar as aves, que com a chegada da primavera começam a povoar as árvores de fruto. No entanto, os moradores queixam-se do barulho constante, avança o Público.

Os produtores de amêndoa criam os sistemas espanta pássaros que usam o ruído como principal arma, dispondo de um temporizador ajustável entre denotações, provocando a debandada de todo o tipo de pássaros consoante a frequência desejada, que pode variar entre os 30 segundos e os 15 minutos.

Contudo, em declarações ao Público, moradores de Santa Clara do Louredo, freguesia nos arredores de Beja, contam que é um “suplício” conviver com o ruído emitido pelos sucessivos disparos dos espanta pássaros. “Tenho de manter as janelas fechadas para abafar o som mas, mesmo assim, parece que estão aos tiros à porta da minha casa”, queixa-se uma residente. Diz compreender que os produtores de amêndoa “queiram manter os pássaros longe das árvores, mas devia haver mais respeito pelo descanso dos moradores”, reivindica.

De facto, das 7h até às 19h, todos os dias, sábados, domingos e feriados incluídos, os campos enchem-se de um ruído intenso e constante provocado pelos disparos de canhões de pólvora seca ou a gás.

Já no caso de Joaquim Afonso, o “ruído quase à porta de casa” não o deixa pregar olho. Logo que as amendoeiras começam a florir, “regressa o tiroteio que só se ouvia assim nos dias de caça”, diz o morador. “Nem com as janelas fechadas a gente se safa. Parece que estou no meio de uma guerra”, acrescenta. “E temos o regimento (Infantaria nº 1) a dois quilómetros e a carreira de tiro nas proximidades e ainda a Força Aérea (B.A nº11) mas nunca fomos incomodados com tantos disparos como agora”, refere.

Luís Gaspar, presidente da autarquia, afirma que quando o problema surge em meados de janeiro, para se prolongar até março, os protestos aumentam de frequência na junta de freguesia de S. Clara do Louredo.

“Os tiros surgem de todo o lado e transtorna toda a comunidade desde manhã cedo até ao final do dia”. Tanto a Guarda Nacional Republicana (GNR) como o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) já estiveram na povoação, os decibéis abrandaram uns dias, mas já voltaram ao nível anterior. “Não temos fim à vista para isto. Até o teletrabalho está posto em causa”, realça o autarca, frisando que, nas atuais condições, ninguém se “consegue concentrar no trabalho ou no estudo por causa do barulho”. E apela para que se encontre outra forma de espantar as aves sem prejudicar o sossego das pessoas.

Note-se que é colocado um espanta pássaros por cada cinco hectares de área, em média. Numa exploração com 20 hectares, nos arredores da freguesia, foram instalados seis canhões.

De acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a autorização para o uso de canhões de pólvora seca e de outros meios “decorre da necessidade de compatibilizar a atividade agrícola com a conservação das espécies protegidas”.

O ICNF adianta ainda que, no atual período, foram emitidas cerca de 60 licenças na área de jurisdição da Direção Regional da Conservação da Natureza e Florestas do Alentejo, licenças que “incluem outros métodos para além do canhão, nomeadamente sons de aves de rapina, a utilização de silhuetas artificiais de aves de rapina ou o voo de aves de presa”.

Referindo o Decreto-Lei n.º 140/99, aquele organismo salienta que a “lei prevê um regime excecional”, aludindo às ações de espantamento com um dos casos previstos como estando enquadradas na legislação.

Contudo, a organização frisa que as licenças emitidas “não isentam do cumprimento da restante legislação em vigor, nomeadamente do cumprimento dos níveis de ruído do método usado para espantar”, um pormenor que não está a ser respeitado em vários locais do regadio do Alqueva onde existem amendoais.

Só no passado mês de janeiro, o Núcleo de Proteção Ambiental (NPA) do Comando Territorial de Beja apreendeu “vários equipamentos sonoros para espantar pássaros que se encontravam sem licenciamento”, disse o capitão Hugo Monteiro, relações públicas do Comando Territorial de Beja (CTBeja) da GNR.

“Este progresso da agricultura em Alqueva foi muito rápido, quase de um dia para o outro e sem olhar para o interesse e o bem-estar das pessoas”, queixa-se o presidente da Junta de Freguesia de Santa Clara do Louredo. “É um progresso sem regras, próprio de uma época em que se faz tudo de uma forma impune”, observa o autarca.

 

Fotografia de diariodoalentejo.pt

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