4 Novembro 2016      14:25

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MOBILIDADE E ACESSIBILIDADE: UMA INTERPRETAÇÃO INCLUSIVA

Uma sociedade solidária, democrática e informada evolui, em todos os sentidos, se a consciência colectiva assimilar que os que nela vivem têm os mesmos direitos e são vistos por todos como iguais. O isolamento de determinados conceitos gera consequentemente uma visão distorcida do que consideramos boas práticas de inclusão.

Associamos erradamente Acessibilidade a infra-estruturas, e esta associação incompleta do conceito limita o nosso campo de percepção.

Já a Mobilidade, poderá ser interpretada enquanto característica de ser móvel - capacidade de nos deslocarmos de um lado para outro. Se estas definições forem transportadas para o nosso quotidiano, estamos a considerar que todos devemos conseguir movimentar-nos de forma igualitária na nossa cidade. Este princípio não é errado porém é limitativo, não no seu significado mas na sua semântica. Se aprofundarmos mais a aplicabilidade destes conceitos ao nosso dia-a-dia vamos acrescentar inequivocamente não só características quantitativas mas também qualitativas.

Aqui não importa apenas a existência de um percurso pedonal mas um percurso pedonal confortável para todos os seus utilizadores, por exemplo. O bem-estar e a qualidade de vida são os chavões fundadores de uma sociedade digna e justa. Assim questionamos inevitavelmente o paradigma da igualdade social o que torna necessário ressalvar que a abordagem aos temas enunciados inicialmente não tem o intuito de se esgotar, queremos apenas transferir a questão para o campo das posições sociais restritivas que impossibilitam a fruição da urbanidade.

Em relação á Mobilidade, é essencial que nos consigamos mover na totalidade da geografia citadina, não permitindo o isolamento ou a falta de acesso a determinadas áreas quer por motivos de barreiras de território ou barreiras sociais. Biológica e intelectualmente não somos todos iguais, temos diferentes necessidades mas há algo que nos torna comuns e nem sempre isso é perceptível, talvez seja exactamente isso que justifique a dificuldade em lidarmos com esse problema.

A luta pela integração na sociedade de pessoas com mobilidade reduzida tem implementado nas nossas mentalidades que esta é a melhor opção para proteger os mais vulneráveis, o que tem gerado segregação e exclusão. Não estou com isto a afirmar que os melhoramentos das infra-estruturas que contemplaram os princípios da Acessibilidade não tenham ido de encontro ás necessidades de um determinado grupo de cidadãos que até á data se via privado da sua utilização e tenha resultado em iniciativas acessíveis, nem mesmo limitando a pluralidade de indivíduos com necessidades a pessoas com deficiência, mas é precisamente a prática do planeamento mono-modal, ou seja soluções demasiado específicas, que nos limita a percepção de boas práticas inclusivas.

Resumindo, o uso de soluções específicas deve dar lugar a soluções universais adoptando práticas de planeamento multi-modal.

Não se trata apenas de melhorar práticas e intervenções mas operar uma transformação cultural na abordagem da questão da Acessibilidade. O objectivo é que a cidade se transforme num serviço público que permita o acesso de todos cidadãos, abolindo ou reduzindo obstáculos físicos, culturais, materiais e jurídicos. A luta pela inclusão é muito mais ideológica que física e aqui gera-se uma necessidade de participação e articulação de diálogo entre toda a sociedade civil, alicerce de uma sociedade em funcionamento.

Todos os cidadãos se devem sentir representados e capacitados de autonomia para exercer o seu direito de opinião. A Acessibilidade promove a utilização dos espaços por qualquer grupo de utilizadores, simplificando e facilitando a vida de todos independentemente do género, necessidade, faixa etária ou grupo social, tornando-se essencial abordá-la no sentido mais lato possível. Só assim os direitos e os deveres universais e individuais podem ser equitativamente cumpridos.

Créditos de imagem: Ana Franco

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