22 Fevereiro 2021      12:13

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In Memoriam Gonçalo Ribeiro Telles

“Não acuse a Natureza, ela faz a parte que lhe cabia. Agora, faça a sua” John Milton

 

No passado dia 11 de Novembro de 2020, faleceu Gonçalo Ribeiro Telles, ilustre português da contemporaneidade que pela sua arte, pelo seu ser deixou profundas marcas e semeou entre várias gerações sentimentos e sensibilidades, sempre oportunas e actuais. Não tive infelizmente oportunidade de tecer antes algumas considerações pessoais sobre o que a sua Memória representa para mim, mas aproveito momento para além de vários epitáfios e dedicatórias de que foi justo beneficiário, expressar o que deixa de si a um ilustre desconhecido da província portuguesa.

As considerações foram muitas e das mais altas dignidades do Estado, onde por exemplo o senhor Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa considera “uma figura determinante na consolidação e alternativa na democracia portuguesa, pioneiro em Portugal das grandes questões que hoje, mais do que nunca, se mostram decisivas, homem de grande serenidade e de grandes convicções.” Também o senhor 1º- Ministro de Portugal, Dr. António Costa expressou o seu pesar pela enorme perda de Portugal dizendo “As ideias que defendia há 50 anos e eram então consideradas utópicas são hoje comummente aceites. A sua perda é inestimável. O seu legado, felizmente, perdura, e somos todos seus beneficiários.”

Gonçalo Ribeiro Telles, ou professor, ou agrónomo, também político e arquitecto paisagista ou ainda ecologista, foi um homem de vários ofícios e, sobretudo alguém que se dedicou profundamente a cada umas das suas causas, em diferentes momentos da sua vida, sempre com capacidade de intervenção e de inovação, criando possibilidades entre aparentes utopias.

Poderia desde logo elencar toda a sua mais proeminente biografia, dizendo que desde logo foi um homem arguto, ousado e inconveniente nos poderes instalados. Já em 1958 aquando das eleições presidenciais aparece como apoiante da candidatura de Humberto Delgado, um opositor ao regime do Estado Novo, sem receio das contrariedade que esse apoio lhe poderia trazer no futuro, ou ainda no início da década de 60 quando abandona a Câmara Municipal de Lisboa onde trabalhava por não aceitar intromissões num projecto que pretendiam que as árvores tivessem menos espaço ou quando em 1967 depois das grandes e trágicas cheias do Tejo criticou severamente o desordenamento do território. Era um homem de diálogo e convergência mas sem temor pela confrontação e pela reivindicação da justiça.

Teve uma forte posição política de oposição ao regime do Estado Novo, desde a fundação do Movimento dos Monárquicos Independentes que cria com Francisco Sousa Tavares em 1957, ao referido apoio a Humberto Delgado, na sua participação nas eleições de 1969, onde se candidata com a sua Comissão Eleitoral Monárquica coligada com a Acção Socialista Portuguesa de Mário Soares, criando a CEUD, Comissão Eleitoral de Unidade Democrática. Em 1971 ajuda a fundar outro movimento de causa monárquica, a Convergência Monárquica e, já no pós 25 de Abril de 1974, funda o PPM, Partido Popular Monárquico com Luís Coimbra, Barrilaro Ruas, Augusto Ferreira do Amaral entre outros.

Em 1979 alia-se ao PSD e CDS constituíndo a AD, Aliança Democrática, tendo sido eleito deputado da República Portuguesa em 1979, 1980 e 1983. Foi ainda ministro de Estado e da Qualidade de Vida de Francisco Pinto Balsemão e foi durante o seu mandato que o país aspira a ter um efectivo plano de ordenamento do território, onde serão criadas zonas protegidas da REN e RAN e as bases para o PDM. É no seu consolado que serão discutidas propostas e textos para a Lei de Bases do Ambiente, Lei do Impacte Ambiental, Lei da Caça, Lei dos Baldios e ainda legislação concernente a condicionantes da eucaliptização. 

Ainda almejou ser eleito vereador municipal em Lisboa em 1984, para o qual criou um grupo designado como Movimento Alfacinha e é novamente eleito deputado na AR como independente nas listas do PS em 1985. Mais tarde, chamando a si a causa ecologista, funda um novo partido em 1993, o MPT assente na causa ambientalista, humanista e internacionalista e da qual será presidente até 2002, sensivelmente.

Mas não foi apenas um Homem de acção política, como um pedagogo, um instrutor das suas causas, legando às mais novas gerações a semente das suas mais “nobres damas”, a ecologia e a arquitecutra paisagista. E foi nesse âmbito que foi professor universitário, sendo discípulo de Francisco Caldeira Cabral e que acabaria por instituir a primeira licenciatura de Arquitectura Paisagística no país, criada em 1981 na Universidade de Évora. Foi Professor catedrático da mesma academia entre 1976 e 1992, passando a professor emérito e tendo obtido o grau de Doutor Honoris Causa em 1994.

Nesta arte são reconhecidos trabalhos do Jardim do Tanque Palácio de Mateus em Vila Real, o Jardim Gulbenkian em 1968, o Jardim Amália Rodrigues no Parque Eduardo VII, em 1996, o chamado corredor verde de Lisboa e a disseminação de hortas e logradouros que entendia fundamentais para amenizar o betão no conjunto urbano da cidade de Lisboa.

Conquistou vários prémios donde destaco o Prémio Valmor em 1975 com o projecto do Jardim Gulbenkian, assinado em co-autoria com António Viana Barreto e, já mais recentemente, em 2013 o Prémio Sir Geoffrey Jellicoe, considerado como o Nobel do Paisagismo.

Foi várias vezes agraciado com condecorações, nomeadamente em 1969 com a Ordem Militar de Sant´lago de Espada, em 1988 com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, em 1990 com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e em 2017 com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

Mas muito mais que todo este descritivo de feitos políticos, cívicos, profissionais e seus reconhecimentos e prémios, é aquilo que o Homem deixa de legado pela sua experiência, pelo seu exemplo e pelo seu saber. Haverá muitas coisas das quais serei inadvertidamente omisso sobre esse mesmo legado do arquitecto Ribeiro Telles para os vindouros, mas em mim, confesso ter assumido aspectos que gosto de procurar exercer no meu quotidiano. Um deles é o de que existem temas, questões que não têm partidos ou ideologias, deverão ser transversais a todos eles, tamanha é a sua universalidade ou

emergência e isso ensinou-nos com a sua múltipla, quase infinita capacidade de criação, fomentando um partido de centro-direita com causas ambientalistas. Outro deles é a sua habilidade e autonomia no espectro político, fazendo sempre o que a sua consciência e convicções ditavam, não obstante de, em determinadas fases da sua vida poder ser mal interpretado por apoios quiçá inusitados ou alinhamentos partidários aparentemente insondáveis. Era todo ele fiel à sua independência e principios políticos, mas sobretudo capaz de em diferentes alturas associar-se a quem julgava mais capaz de fazer melhor pelo que se propunha fazer em política e isso, muitas vezes implicava estar do lado de pessoas, de partidos ou convicções diferentes. Alcançou sempre esse desiderato com distinta lucidez, estabelecendo pontes com diferentes sensibilidades. Há ainda outro aspecto do seu percurso que muito admiro e que acho que poderia ser um recomendável conselho a toda a Direita Portuguesa. Pode a Direita conquistar espaço e frescura no seu raio de acção se almejar ter consigo alguma consciência progressista. Não pode ficar refém do vetusto conservadorismo sem que com isso fique mais apetecível para o eleitorado. Pode sim ser inovadora respeitando os seus princípios e bandeiras, como vimos por exemplo na sua causa ecologista. Mas muitas áreas, como na económica e social pode e deve a direita saber-se reinventar e dotar-se de soluções mais arrojadas, mesmo que não ensaiadas, afinal também a sociedade é um tubo de ensaio que carece muitas vezes, face a situações inéditas, respostas ousadas. Revejo essa sensibilidade na doutrina pessoal e política do arquitecto. Mas vejo ainda outras virtudes da sua experiência de vida, provavelmente mais mundanas mas que nutrem por mim enorme admiração. Gosto especialmente do seu humanismo sempre presente na dialéctica política ou na pedagogia académica, mas muito da importância que ainda assim dava à família como elemento estruturante da sua afirmação profissional e méritos públicos.

Sentia dever isso à educação, à família e a todos quanto privaram consigo e fizeram dele melhor ser humano. Ou seja, a sua gratidão pela vida e pelos que o rodeavam permitia-lhe dizer que as sua capacidades e os seus feitos reconhecidos eram consequência dessas vivências. Por fim gosto particularmente da sua frescura intelectual e da sua inesgotável energia. Foi um homem sempre cheio de ideias e vontades e quase nunca a idade foi impedimento para as suas realizações. A idade é um estado de alma, muito mais que uma condição temporal.

Tanto mais poderia tentar dissertar sobre a sua vida e genialidade, mas basta-me nesta súmula observar a sua dádiva e legado a muitos das gerações subsequentes pelo que foi sempre capaz de construir e saber pensar. Deixa uma semente que deverá ser devidamente lavrada em tempo de tantas carências….Enquanto profundo admirador da sua magnificência, tudo farei para regar essa terra e ajudar o exemplo dessa semente a brotar nestes campos mais agrestes.

O senhor arquitecto disse em 2013 que «A inquietude tem que existir. Todos estamos numa marcha...»… Que bela forma de me despedir de si…inquieto e em marcha pelo futuro!!

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