29 Março 2021      15:19

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Meias da Serra D´Ossa, um ícone da produção artesanal alentejana

Continuamos a nossa viagem pela cultura alentejana. Desta feita, de regresso ao interior e à deslumbrante paisagem da Serra D´Ossa em Redondo. Território enigmático, repleto de lendas e lar ancestral de uma importante comunidade de eremitas. Desta emblemática região, destacam-se inúmeros costumes, tradições e importantes manifestações culturais não só na Vila de Redondo, como por todo o concelho. Motivo pelo qual, prometemos voltar dentro em breve.

Invertemos a marcha desde a magnífica Vila de Redondo até à peculiar Aldeia da Serra já na encosta da serrania. Pois bem, é precisamente neste lugar que, encontramos um dos mais icónicos artigos da produção artesanal alentejana – as meias da Serra de D´Ossa.

As evidências documentais não abundam o que, à partida, deixou alguma apreensão, mas também um sentimento de dever e responsabilidade. É inequívoco o iminente risco de desaparecimento desta arte, ao qual este artigo tem o desígnio de ser mais um motivo de divulgação para a sua salvaguarda.

As meias da Serra D´Ossa, genuínas pelos seus motivos decorativos, cores e minuciosidade de elaboração, já sem o fulgor de outrora, representam um saber ímpar ao qual poucas mãos têm conseguido manter a sua produção viva. De todas elas, resistem, em boa hora, as habilidosas mãos da Maria Felismina Gonçalves, a Ti Bia como muitos, com grande afeto, lhe chamam. É esta simpática e afectuosa senhora, a grande guardiã desta maravilha da produção artesanal alentejana, ao qual agradeço o seu valoroso testemunho.

Atenta ao talento da sua mãe em produzir estas meias, desde cedo demonstrou um enorme interesse na sua aprendizagem. O entusiamo crescia e arranjou umas agulhas, começando a praticar sozinha: “Olhe, lá me fui desenrascando e experimentando! Ainda cheguei a fazer para meu avô. Com o tempo comecei fazendo com duas cores. Aprendi sozinha. Depois, minha mãe dizia-me para fazer desenhos com motivos decorativos e ir praticando”. Então ia fazendo os desenhos que me palpitavam. De início não saíram grande coisa mas depois lá foram saindo bem”. Com orgulho e nostalgia, a sua voz serena, começava a transmitir-me uma curiosidade infindável e uma contagiante vontade em saber mais e mais. Às cores que hoje caraterizam este tipo de meias (vermelho e amarelo), refere a Ti Bia que, “antigamente quando as pessoas trabalhavam no campo, estas meias eram usadas mas com uma única cor e uma linha. Depois é que se começaram a utilizar as duas cores e com desenhos diferentes”(motivos florais e geométricos tradicionais). Todo este trabalho de grande morosidade e “extrema atenção para não baralhar”, dão um cariz bastante meticuloso no tricotar deste produto. Cinco agulhas e duas linhas (uma de cada cor), são os materiais necessários na sua elaboração, começando a “empreitada” pela perna e terminando no bico do pé.

Sobre o seu uso e procura, refere ainda a última depositaria desta tradição que, “há uns tempos atrás alguns habitantes da aldeia produziam as meias, mas apenas por lazer. Eu Já fiz mais de cem pares e até já foram algumas para os Estados Unidos”. Com orgulho de que esta tradição começa a ter o reconhecimento e procura que merece, concluiu que, há bem pouco tempo, lhe encomendaram dezassete pares.

Sensível à urgência na salvaguarda deste precioso património, o Município de Redondo tem previsto um plano de salvamento e formação que, interrompido pela situação pandémica, irá certamente ser retomado assim que possível. Como em tantas outras tradições seculares da nossa Região, a Escola, poderá desempenhar um papel decisivo na sua sensibilização e salvaguarda.

A transmissão oral da Ti Bia, na sua viagem ao passado com o detalhe dos seus ensinamentos, são um imprescindível meio de continuidade, o qual tive o privilégio de escutar. Obrigado!

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Nota do autor: A Ti Bia vive na Serra D’Ossa (Redondo) e com as suas mãos e agulhas mantém viva a tradição de fazer as meias encarnadas e amarelas tão típicas daquele lugar. É a guardiã desta arte, deste património riquíssimo! Clique abaixo para ver e ouvir: alentejocantaencanta.wordpress.com

 

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