14 Novembro 2016      09:29

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A MALAGUEIRA: URBANIDADE INCLUSIVA

Há muitas arquitecturas, muitos bairros, muitas casas, muitos olhares e muitas pessoas. Depois há Siza Vieira, o Bairro da Malagueira e as pessoas que o habitam. A Malagueira enfrentou no passado algumas críticas pela sua incontestável imagem irreverente e enfrenta hoje questões internas que apelam a uma renovação positiva da sua imagem, quer por parte de quem lá habita ou por quem o quer regenerar.

O discurso da arquitectura, embora diversificado é naturalmente fechado embora comece timidamente a contemplar a importância do olhar de quem está por fora e relacionado com outras disciplinas, como um importante contributo para alargar e enriquecer a sua expressão. Proceder à análise arquitectónica da Malagueira seria redundante e desnecessário dado o reconhecimento internacional que conquistou e a extensa bibliografia que inspirou e gerou. 

O que se pretende é um artigo acessível que guie o leitor pelas etapas da viagem de pesquisa que fiz sobre o bairro, que também já foi o meu, para conseguir transmitir de forma clara os elementos essenciais para a construção de uma valorização colectiva sobre o lugar a que pertencemos. E fortalecer a temática da acessibilidade aplicada aqui em três variações, a completa visão inclusiva do arquitecto, a obra enquanto resultado feliz dessa contemplação e a exposição de ambas.

A Malagueira surgiu numa altura em que o panorama cultural e social era muito conservador e estático, por isso logo se tornou uma aventura urbanística única que cedo e depressa agitou as águas da arquitectura. O Arquitecto do Norte, Siza Vieira, empenhado na procura da cidade possível e não na cidade ideal, concretizou em amplitude um projecto habitacional respeitando a cultura do Sul, sustentando a sua visão progressista numa linguagem enraizada nas pessoas e atenta às suas necessidades anotando nas legendas do esquisso as suas preocupações.

Siza é manifestamente moderno mas introduziu de forma clara os elementos tradicionais no projecto, mantendo inclusive os símbolos da ruralidade ali já existentes: a nora e a Quinta da Malagueira, por exemplo.   A uniformidade visual das casas introvertidas com pátios intimistas, de composição binária porta janela em nicho unifamiliar, numa longa composição luminosa e branca, ostentando as chaminés altas, rodeadas por desafogados relvados e situadas numa localização privilegiada situada a menos de 1 km da muralha, traduzem a linguagem cuidada de um lugar pensado para todos e onde todos teriam iguais direitos em o habitar. É também nessa preocupação pela igualdade social que o Arquitecto iria, a partir daí, criar também parte da sua obra pelo mundo fora.

É no momento da concretização das palavras para descrever um espaço que me é especial que as utopias poderão ter lugar, pois todas as relações sentimentais são tarefas intermináveis. A especulativa afirmação que o bairro não foi concluído, do ponto de vista visionário do seu criador, está viva e há espaço neste texto para um apelo de esperança, numa altura em a questão da acessibilidade habita os ateliers de arquitectura e o futuro quer concentrar-se na criação de espaços para pessoas reais.

Na última década, o planeamento urbano ganhou um novo enquadramento legal e geral e serão também os arquitectos um dos principais veículos para transmitir de forma inclusiva esta mensagem.

A Malagueira fará parte da agenda da Câmara Municipal de Évora para 2017 e só me resta desejar que todas as intervenções, quer sejam melhoramentos ou acrescentos, contribuam para reforçar, devolver ou atribuir o sentido de pertença da população, principal promotora da imagem pública do bairro, visando a busca de uma valorização do indivíduo enquanto ser social, histórico, fazedor da realidade, na mesma medida e ênfase que a idealizou o Arquitecto.

A arquitetura inclusiva respeita a diversidade humana e gera acessibilidade para todos. Esse paradigma marca uma nova cultura e abre um caminho promissor aos principais dinamizadores deste espaço, no futuro ou no presente.

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