2 Julho 2017      10:03

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THE KEEP DE MICHAEL MANN

"DESVIOS E RESPECTIVOS ATALHOS: FILMES, LIVROS E DISCOS"

The Keep (1983), Michael Mann

Um filme de horror – foi-me dado a ler num momento de acaso. Sobre o sinistro destino de um batalhão nazi perto do final da guerra. Esquecidos nos confins da Roménia, ocupam um castelo e inadvertidamente libertam uma entidade milenar e demoníaca presa nas suas catacumbas. Para a combater, procuram a ajuda disponível, um professor de História e a sua filha, não sem ironia judeus, e ainda um louco que diz saber como destruir esse demónio.

E que mais? Tempo passou. Não se encontra editado em DVD ou Blu-Ray. Não deverá ser reposto nos tempos mais próximos. Não recordo que, por cá, alguma vez tenha passado em televisão. O realizador abjurou-o logo após a estreia (estreia com pouco sucesso, diga-se). O autor do livro em que o filme se baseia detesta-o, e não perde uma oportunidade de o proclamar em voz alta. O que nos resta? Fazer como o Capitão Kidd. Com enormes vantagens, no entanto, facilmente expressas em três pontos: i) não há sangue para verter, muito menos o nosso, ii) crime de que nos venham a acusar ou iii) culpa que possamos sentir. É um daqueles casos em que, existindo falha, é claramente da parte de outros: os que o abjuram, os que o detestam, os que não o programam e os que não o editam, independentemente da ordem.

A cópia, perdão, o ficheiro - é o hábito, bom hábito como podem ver - disponível não tem grande qualidade, o que estranhamente favorece o filme. Não é obra que se preste a grandes e / ou notáveis tratamentos digitais. Quer-se escura e granulada. Tal como a música, essa sim a pedir e a conseguir o notável, a cargo dos Tangerine Dream. Simbiose perfeita entre os compassos electrónicos, delongados e intensos, e a atmosfera de perda - perfeitamente projectada na fortaleza onde os incautos nazis libertam o assombro monstruoso, que também é o deles. Não só. É também o canto de uma época a outra, a das suas lendas. Castelos filmados com a antiguidade (devidamente) exposta em contraponto com os mistérios ocultos em memórias colectivas arrumadas algures entre o duradouro e o evanescente, atrás de portas secretas ou sob toneladas de pedra. Modernos ocupam o antigo e perdem-se definitivamente. Mas estes já estavam perdidos. Falamos de nazis.

Porquê tanta repulsa do seu autor? Alguma perplexidade na parte alta do rosto. Estamos perante um potencial filme de culto. A quem serve? Pois não a nós, agora ciosos dos nossos 1,2 gigabytes de prazer intelectivo.

 

Imagem de wrongreel.com

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