15 Julho 2017      22:54

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JOHNNY GOT HIS GUN

"DESVIOS E RESPECTIVOS ATALHOS: FILMES, LIVROS E DISCOS"

"Johnny Got His Gun", 1969. - Notas Soltas, imberbes e potencialmente contraditórias:

 

Quando a vertigem é cliché, e o cliché se mantém como essência do simbolismo, o que dessa sequência (lógica) subjaz? Um regresso à inocência do olhar, que, por sua vez, é a máquina reguladora da ficção (cinematográfica)? Ou já não é?

Um ou outro spoiler são inevitáveis, o que nada retira a quem não viu. Joe foi para a guerra e obteve a sua arma. Uma vez lá, apanhado à traição por um estampido súbito, pouco lhe restou.

O que perdeu: Braços, pernas, olhos, nariz, boca. Portanto, não toca, não anda, não vê, não cheira, não fala. Golpe do destino: Sente.

Que fazer com essas sensações estendido numa cama, atirado para a despensa do hospital? Nada que se possa considerar acto. O que resta são memórias e sonhos perdidos, que infelizmente são qualquer coisa.

Trumbo, que adapta um romance da sua autoria, vai directo ao assunto. Pretende a mensagem clara (libelo antiguerra) e eficaz (pelo simbolismo objectivo). Não teme que o considerem ingénuo. Era um tempo que a isso se proporcionava. E também coragem nunca lhe faltou, aliás - foi um dos excluídos dez de Hollywood, que não se vendeu ao Macarthismo. Joga limpo: A primeira memória do quasi-morto (aqui Quasimodo em modo excessivo!) aparenta ser memória efectiva, as que seguem caminham implacáveis rumo ao sonho; e antes do sonho, a fusão, a dúvida entre este e aquelas. Há percurso e identificação com o percurso.

Pelo caminho, Joe descobre que pode comunicar, via código Morse. Quando se consegue fazer ouvir, a ligação expõe um outro horror, um reverso inevitável (neste e em todos os filmes suficientemente corajosos para ter uma – embaraço tossido - mensagem), a um certo nível, transposta a fronteira do Ego, do devaneio já não se acorda. O real enquanto consciência do pesadelo perpétuo. O murro no estômago. Compatibilidade perfeita: não só não se acorda, como (outros) não querem que se acorde.

Obviamente, quem se reveste de armadura pode passar incólume; um olhar moderno resiste por natureza por estar gasto de imagens e mensagens e modelos. Pois se assim é, que se anti-resista, queremos os nossos modelos de volta, queremos os Johnnys, os Easy Riders, os Midnight Cowboys, os Help Me, Please e os Who Gives a Fuck! Queremos os 70’s por nos limarem as arestas dos 60’s. Queremos desprezar os 80’s por serem práticos e auspiciosos e, acima de tudo, prósperos. Oferecer o peito ao impacto!

A dado ponto, uma figura-Cristo aparece ao dreaming Joe e diz que nem ele o pode ajudar; num outro instante, o Padre de serviço lava dali as mãos e responsabiliza o General, pois não foi o Padre que criou o amputado problema, mas o General; General, esse, que encolhe os ombros perante a sorte do soldado caído. Joe meteu-se com quem não devia, um rosto múltiplo e demente, acreditou - e acabou pior que morto. Suficientemente vivo para ter de aturar o Padre e o General, mas não o suficiente para os denunciar ou no mínimo poder mandar para o tal sítio. Pelo menos o Cristo foi honesto – o que não o recupera e contudo, humaniza.

Tudo para e por fazer, no meio de tão bárbaro e ruidoso SOS. Assim queiramos, mesmo não podendo responder ao apelo, tirar as mãos dos ouvidos. 

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