27 Novembro 2016      13:10

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JÁ NÃO TENHO MEDO

"INCONSTÂNCIAS"

Quantos anos se vivem até morrer? E quanto é necessário arriscar para viver enquanto se vive? - Estas perguntas têm andado comigo como duas melhores amigas. Sem esperar uma resposta mas em contínuo diálogo. Sem me apressar mas guiando os meus pés pequenos mas de passada segura. Segura hoje. Segura depois. Segura porque diz: já não tenho medo.

Quantos anos se vivem até morrer? - Onde estamos nós enquanto a vida acontece na nossa vida e nós não a vimos acontecer porque a vivemos demais...ou demasiado pouco?

Hoje oiço a minha mãe sentada na cadeira do canto da mesa do jantar a repetir-me: aproveita, Inês. Faz tudo o que desejas fazer, Inês. Sê tudo o que desejas ser, Inês. Hoje oiço a minha mãe mas não com a face cerrada da adolescente embebida na anestesiante parafernália que é achar que já tenho a vida toda programada e é aquilo que quero. Hoje oiço a minha mãe com a urgência que a voz dela me mostrava naquele tempo e que eu não compreendia. A urgência de quem sabe que há muito no mundo para caber em tão pequeno espaço de tempo, que de nada vale o arrastar dos dias e a passividade da comodidade, que no final do dia, quando a cabeça toca no fresco da almofada, o importante é o peito estar descansado. O que importa é o peito reluzir naquele milésimo de segundo antes de as pálpebras se cerrarem.

Hoje oiço a Beatriz dizer “gosto de te ver assim, parece que brilhas com felicidade”. Oiço a Beatriz e sei que já não tenho medo e é isso que brilha em mim: a certeza de ter o que preciso para continuar. Porque por vezes, muitas vezes, o que precisamos parece ser enorme comparado com o nosso corpo, mas, na maioria das vezes, caber-nos-ia numa mão se pudesse ser tocado. Somos complicados num mundo que nos pede a simplicidade de saber ser simples. Somos complicados num mundo onde existe um mar salgado selvagem que parece infinito, onde existe o sol de Outono que nos aquece os pés enquanto rimos numa mesa cheia de amigos, onde existem pessoas que chegam perto de nós e nos dizem “gosto de te ver assim, parece que brilhas com felicidade”. E um “gosto de te ver assim, parece que brilhas com felicidade” é também um: não estás sozinha. São as coisas pequenas a ser grandes e as coisas pequenas a ser grandes é uma magia que nos passa ao lado quando temos medo e não nos perguntamos: quantos anos se vivem até morrer?

Porque, caro leitor, é uma escolha. Uma escolha que não nos apercebemos de fazer todos os dias, desde que acordamos até que adormecemos. Uma escolha que parece que outros fizeram por nós mas que simplesmente não é feita e enquanto nos convencemos que outros fizeram essa escolha por nós vamos morrendo sempre na espera de que estejamos a viver. E viver não é aquilo que eles nos dizem que é, viver é mais do que uma rotina, do que um aceitar (embora seja também aceitar), viver é mais do que ultrapassar cada obstáculo e cada dor com uma cara franzina, mais do que ficar preso às raízes que nos emprestaram: viver é celebrar todos os dias as nossas escolhas, e os nossos obstáculos e todas as dores que já sentimos. É dizer: eu sei, eu já não tenho medo. Eu estou aqui hoje e sei que amanhã ainda vou estar porque perdi a conta aos dias em que achei que era o fim e foi sempre o início. O início de outra parte de mim, que sou feita da minha mãe sentada na cadeira do canto da mesa e da Beatriz a falar do brilho da minha felicidade, e da Zélia a dizer-me para prestar atenção a quem sou porque sou maior do que aquilo que penso. O início de outra parte de mim que sou feita das pessoas que chegam perto e me dizem que as minhas palavras as aqueceram, que a minha coragem as encorajou, que os meus pés pequenos de passada segura são mais do que pés pequenos de passada segura.

Hoje ouço a Zélia dizer-me que o que tem que ser tem muita força. E mesmo quando não a ouço dizer eu vejo nos seus olhos: o que tem que ser tem muita força. Uma vida inteira pede muita força para saber ser vivida, para que se faça dela o melhor que ela possa ser. Uma vida inteira pede-nos um peito erguido e punhos cerrados. Coragem para saber o que merecemos e merecê-lo. Força para aceitar que viver implica deixar morrer, deixar ir, aceitar que nem tudo pode realmente ficar. Força para compreender que a única constante é a mudança.

Hoje ouço a Zélia e sei: já não tenho medo.

E oiço a Marta que me diz que tenho muita gente a apoiar-me, e os amigos inesperados que me dizem que até a minha estranheza tem a sua parte de beleza. Oiço tudo isto e sei: eu não preciso de ter medo.

Quantos anos se vivem até morrer? Aqueles que nós decidirmos viver. Aqueles que nós quisermos fazer por viver. E viver não é voltar para casa e pensar: mais um dia. Viver é o juntar dos pequenos gestos que nos deixam a pensar de que é que somos feitos, como é que as estrelas conseguem ser tão arrebatadoras numa madrugada escura, porque é que perdemos tanto tempo com o medo. Porque é que perdemos tanto tempo com o medo se há tantas conversas de final de noite, fáceis e sonolentas, repletas de anos e felicidades, para ter. Se há tantas gargalhadas fugidias e contagiantes a ouvir e a dar. Se há tantas noites numa mesa qualquer de um bar entre os amigos de sempre e as memórias que sempre vão ficar para acontecer. E estas noites, estas conversas, estas gargalhadas, estes amigos são anos acrescentados aos anos que vivemos até morrer.

Já não tenho medo, caro leitor. O medo é a vida a ser curta e eu quero sair em grande. Quero levar comigo tudo o que foi complicado mas de forma simples: em pés pequenos de passadas seguras e numa leveza sábia de quem sabe que amanhã, e depois de amanhã e no dia seguinte e no outro ainda vai estar aqui.

E com sorte, talvez consiga viver mais tempo do que o que a morte permite.

 

 

Imagem de  cleofas.com.br

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