21 Junho 2017      14:06

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INTENÇÕES QUE ARDEM, VIDAS QUE SE VÃO

É certo que não sou especialista em questões ambientais, nem tão pouco sou um visionário no que toca a assuntos da esfera florestal, ecológica e do ordenamento do território. O que vos quero trazer aqui é apenas uma memória de infância, que me faz refletir várias vezes aquando das catástrofes incendiárias. A tragédia de Pedrógão Grande refrescou-me novamente a memória…infelizmente não pelas melhores razões.

Lembro-me como se fosse hoje: teria cerca de 9 de idade e vivíamos o quente e trágico verão de 2003 – ano esse em que houve a maior percentagem de área ardida que alguma vez houvera registo no nosso país. Da janela da casa dos meus falecidos avós paternos, no Concelho de Murça (Distrito de Vila Real de Trás-os-Montes), era possível observar, nas noites quentes de verão, as chamas que iam devastando aquela serra tão próxima que a vista nos permitia alcançar com a maior nitidez que se possa imaginar. Tenho essa “fotografia” bem presente na minha memória, desenhada através de um rasto vermelho e laranja, que se assemelhava bastante à personificação da figura do “inferno, transmitida aos mais pequenos através de algumas animações infantis. Uma imagem tão forte e preponente que nos aquecia a face e a alma apenas com o contacto visual. A calma e a pacificidade que me era transmitida pelos meus ascendentes fazia-me acreditar que tal acontecimento era habitual, e que não teria qualquer tipo de risco ou perigo associado. Inocência e presunção típica de uma criança que acredita facilmente, e sem julgar, naquilo que os mais graúdos lhe vão contando. Hoje tenho plena consciência que os fogos por aquela zona eram sim um acontecimento habitual, mas a pacificidade era apenas um estado de espírito que se transmitia aos mais novos, para que não se despertassem situações de pânico. Na realidade os populares que por ali habitavam iam rezando para que as chamas não chegassem nem às suas casas, nem tão pouco às suas terras – em maior parte dos casos a sua maior fonte de sustento. Lembro-me como se fosse hoje: ficávamos por horas a observar as chamas. O calor e o ar abafado eram tão presentes que inevitavelmente o suor começara a escorrer pelos rostos…. Para mim, criança que sempre respeitou os fenómenos naturais, o resultado era óbvio: uma noite em claro.

Hoje, em pleno mês de junho e à porta do Verão, vivemos uma das maiores catástrofes florestais que há memória no nosso Portugal democrático. Uma catástrofe que provocou dezenas de vitimas mortais, que feriu mais de uma centena de pessoas, que deixou crianças órfãs, que destroçou habitações de outras tantas dezenas, e que levou consigo famílias inteiras.

A matemática fácil calcula que de 2003 a 2017 vão 14 anos. A minha memória relembra-me que Portugal já ardia em 2003. O meu raciocínio coloca-me à prova, questionando: o que foi feito neste período para que não fosse possível evitar uma catástrofe desta dimensão?

Durante este período não existiu um ano em que não houvesse alguma área ardida em Portugal. É certo que uns anos com maior intensidade que outros, mas em 14 anos nunca ocorreu um verão sem fogos. Toda esta análise leva a crer que o problema dos fogos em Portugal é um problema estrutural e não metodológico. Portugal é dos países do mundo, senão mesmo o maior país do mundo, no que toca a área ardida. Conjuntamente, Portugal é o país onde a percentagem da floresta que é privada é maior. Apenas 3% da floresta é propriedade pública. Especialistas têm vindo também a afirmar, ao longo de vários anos, que as monoculturas (antigamente mais frequentes com pinheiros e atualmente com eucaliptos) representam um elevado perigo no que toca à existência e propagação de fogos. A conjugação de todos estes fatores leva-nos a crer que o diagnóstico em relação ao nosso país, na temática dos incêndios, já tem vindo a ser desenvolvido há largos anos.

Onde fica a responsabilização então? Desta vez não existiram incendiários. Desta vez não existiram sequer interessados no negócio da madeira. A causa foi natural…uma situação climatérica bastante peculiar que se manifestou sob a forma de uma trovoada seca. Quem iremos culpar? A natureza? Não pode existir pudor de assumir que toda a problemática se encontra claramente adjacente à inação, inércia e más decisões por parte da classe política, que tem tratado este assunto como uma questão secundária, optando diversas vezes pela reação ao invés da prevenção.

Todos os anos, mais especificamente nesta altura do ano, reúnem-se especialistas e sujeitos formatos, a fim de se discutirem os porquês que levam ao acontecimento destas catástrofes. A mim parece-me que esses porquês estão já há muito encontrados, e que a questão que deverá ser colocada é: “quando?”. Quando é que realmente se irão começar a tomar ações a fim de promover a responsabilização dos proprietários que deixam as suas terras por limpar e por cuidar? Quando à criação de legislação que penalize severamente estes casos? Quando à promoção de verdadeiras estratégias de sensibilização na sociedade civil que a envolva no seu todo? Quando à reutilização estratégica dos antigos postos dos guardas florestais? Quando à resistência ao lobby empresarial que nos ameaça com as suas culturas de produção irresponsáveis e danosas?

Este verão iremos certamente passar o resto dos dias a ouvir debater sobre este tema em todos os canais televisivos, em todas as estações de rádio, em todos os meios de comunicação, e certamente também nos órgãos de governação pública. Todos os anos assistimos a intenções que acabam por se desvanecer à medida que o tempo passa, fazendo com que chegue o outono, e que no esqueçamos das temperaturas elevadas e dos ventos quentes. Ignorando que muito provavelmente para o ano cá estaremos outra vez (a debater fogos e incêndios) e, infelizmente em alguns casos, chorando mais uma vida.

Que as intenções passem realmente a ações e medidas concretas, colocando a reorganização florestal como uma real prioridade nas políticas públicas do nosso país. Hoje choramos a vida de mais de 6 dezenas de pessoas que foram vitimas de uma catástrofe sem precedentes. Que não choremos nem uma mais.

Aos familiares de todas as vítimas da tragédia de Pedrógão Grande gostaria de deixar as minhas mais profundas condolências. O país está convosco neste momento difícil. 

Foto: Rádio Renascença

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