16 Abril 2017      09:47

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ÍNDIOS E SOUTHERN COMFORT

"DESVIOS E RESPECTIVOS ATALHOS: FILMES, LIVROS E DISCOS"

Índios e “Southern Comfort” (1981), um filme de Walter Hill

 

De uma belíssima selecção de filmes sobre a presença do índio, em relação à qual nada deveria haver a acrescentar, foi, no entanto, dito o seguinte: Ou então, por se ter visto o Walter Hill lá no meio [Geronimo: An American Legend (1993)], colocar em qualquer parte algo que mostre o índio que remanesce, o colono resistente à civilização US of A. Falo de Southern Comfort (1981), do mesmo Walter Hill.

O Índio, cavaleiro solitário ou em tribo, tal como nos habituámos a ver os masterizados nativos, no fundo reminiscência de uma ideia puramente ocidental: o desejo secreto de não pertença, índios antes dos índios, e quem sabe se antes dos índios da tal Índia – para onde todos os mares levavam de uma forma ou de outra (ou porque levavam ou porque deveriam levar).

Sucessão de erros, claro está; erros a remeter para o desígnio de um sonho e, contudo, a redundar (exclusivamente) na morte como desígnio. Os índios do meio, os que apetece chamar verdadeiros e não meramente autóctones, pois também americanos, não tinham hipótese, pois não havia referência onde pudessem encaixar (não eram sequer os outros por antítese a nós – a América é um conceito ocidental europeu, que o seu índio desconhecia, e para o ocidental europeu de gema um lugar que não deveria estar ali, um erro por natureza).

Mas desviamo-nos também nós – No fundo, quando falamos do outro índio americano (e que melhor exemplo do que os Cajuns dos pântanos da Louisiana, descendentes dos Acadianos de uma região mais a norte e mais fria), falamos de uma fuga que remete para o regresso impossível a casa. Regresso que não se deseja, e que por não se desejar não pode deixar de ser invocado como razão para prosseguir. E vai sendo gradualmente esquecido, até que cessa a marcha e passado algum tempo nada mais resta do que a memória inconsciente e originária, a memória das cavernas. Sendo que estes índios, por serem o outro que há em nós, são bem mais temíveis…e não tão fáceis de fazer desaparecer.

Ainda quanto a Southern Comfort, em resumo e na sequência do que foi dito, não seria de bom tom deixar de notar a dupla ironia: é o outro que em nós habita que nos assusta e derrota, e as partes digladiam-se numa terra que não só não lhes pertence, como é um equívoco na essência. É óbvio que não vinga o verdadeiro índio. Não pode fazê-lo, está fora do seu alcance. Esse filme, se de um filme precisamos, é “The Shining”, de Stanley Kubrick (não por acaso, o primeiro da lista mencionada no início).

 

Imagem de rheaven.blogspot.pt

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