18 Janeiro 2021      16:40

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Gente mimada em tempos de pandemia

Os números falam por si. Hoje, segunda-feira, tivemos mais 167 mortes, um novo número máximo num só dia (há um total de mais de 9 mil), mais 276 internados (total de mais de 5000 internados) e mais 17 pessoas em Unidades de Cuidados Intensivos (estamos perto do limite de camas com mais de 700 internados).

Vários dias seguidos com mais de 10.000 novos casos diários tornaram Portugal o país com maior número de casos por milhão de habitantes, segundo a universidade norte-americana John Hopkins.

Não é preciso muito para perceber porquê. Estando decretado um confinamento, pronto se preocuparam em ver qual a exceção que melhor servia e basta olhar pela janela para se perceber que parecem dias normais. Basta percorrer as redes sociais e verão fotos, se não dos próprios em incumprimento, dos “novos pides das redes” sempre em cima de qualquer coisa que possam criticar.

No fim de semana em que caiu neve, com confinamento a partir das 13h, todos pareciam ter-se esquecido de que deviam ficar em casa e foram a correr para a serra da Estrela, e para outras, e andavam na rua a dar entrevistas às tvs.

Com este novo confinamento, as coimas viram os seus valores duplicados, mas não tiveram o efeito dissuasor desejado. Se não existir de facto uma correta fiscalização e punição de casos claramente abusivos, que põe em causa a saúde e bem-estar de terceiros (já nem refiro os próprios) não serve de nada. Ficam expostas e fragilizadas as franjas da sociedade que são grupo de risco e todos os outros que possam necessitar de recorrer a qualquer emergência hospitalar. Os profissionais de saúde estão exaustos e têm aguentado heroicamente desde março. Têm sido dadas mais condições, têm sido criados mais espaços, mais profissionais, mas nada, nada será suficiente se cada um não fizer a sua parte. E fazer a sua parte é simples, bolas, é ficar em casa. Não se pede mais!

Em março, centenas de orgulhosos portugueses cantavam o hino e batiam palmas à janela em homenagem aos profissionais de saúde, afinal, se na Itália e na Espanha faziam isso, nós não éramos menores. Homenagens bacocas, vazias e hipócritas numa época em que tínhamos um décimo dos números atuais.

Chegar a um novo confinamento significa um rude golpe para a economia, mas é o necessário para suster a propagação do vírus, no entanto, não funcionará porque as pessoas (como estupidamente referiu tanta gente) não estão “a aderir ao confinamento”! Aderir?!!? Mas cumprir a lei é questão de opinião? De adesão?

Sofre a economia e não melhora a saúde e se - para si que anda na rua como se nada houvesse, estupidamente orgulhoso, sem máscara, sentindo-se uma Super-mulher, um Super-homem ou um Tarzan - o conceito de economia é tão abstrato como o de Estado, eu digo-lhe o que é economia: é a loja ao fundo da sua rua fechar e não voltar a abrir, é o seu vizinho do lado ficar desempregado, é o restaurante onde vai aos anos não voltar a servir-lhe um café, e tudo, tudo isto, porque não consegue ficar em casa, com centenas de canais diferentes na tv, com internet, com livros, jornais e revistas, telemóvel, videochamadas, com lareira, aquecedor ou a manta do sofá, com a comida do restaurante que gosta em take-way, e com a sua família que tem o dever de proteger!

Criámos um país de cidadãos mimados, que não sabem valorizar o que têm porque o dão como garantido. Mas pode não haver um amanhã. Pode não haver um amanhã com as condições que têm hoje, porque antes, também não houve.

Um vídeo do ator espanhol David Muro resume bem o contraste deste mimo e das dificuldades do nosso passado recente. Refere sumariamente que uma pessoa nascida em 1900 passou pela Primeira Guerra Mundial - com um saldo de 22 milhões de mortos – por uma pandemia, a gripe espanhola, e que matou mais 50 milhões de pessoas, pela crise económica que começou com a queda da Bolsa de Nova York e que provocou inflação, milhões de desempregados, fome… por todo o mundo, pela chegada dos nazis ao poder, por um golpe de Estado e uma Guerra Civil (no caso espanhol - Portugal vivia à época o tempo do Estado Novo) e que terminou quando começou a Segunda Guerra Mundial.

Em Portugal, a ditadura terminou e o país começou a crescer e progredir com a entrada na União Europeia. As pessoas sobreviveram a tudo isto e não perderam a alegria de viver e vontade de melhorar como um todo.

Os netos e bisnetos dos sobreviventes de tudo isto, nasceram (nascemos), quando a sociedade era já, comparativamente àquele passado recente, “um berço de ouro”, não tivemos nunca de lutarm muito por muito, mas isso não significa que não possamos dar valor ao que temos.

Enquanto a Covid-19 arrasa toda esta geração de avôs e avós que sofreram para criar o mundo em progresso que nos deram, nós vamos continuar a queixar-nos do cansaço, de ter que usar máscara, lavar as mãos e ficar em casa com todas as comodidades? Não conseguimos estar gratos por estar vivos? Não nos podemos ajudar mutuamente para ajudar a acabar com esta pandemia?

Vai continuar a desculpar o seu comportamento com as exceções? Com dados e estatísticas comprovadamente infundadas e manipuladas? Com um negacionismo medieval doentio da ciência e dos cientistas?

Não, não vai ficar tudo bem. Há muito que já não está. Agora, mais que nunca, fique em casa.

Sim estamos juntos no mesmo barco, mas nem todos vão sofrer as mesmas consequências; faça a sua parte.

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