19 Agosto 2017      10:31

Está aqui

A GALINHA

Falemos de animais. Oh, que chatice, esta semana outra vez, dizia alguém que estava mais afastado, a ler ao longe o texto que o outro estava a começar a escrever. Todavia, a história começava. E começava assim. Estavam cinco pessoas naquela sala onde se iria desenrolar o vil caso… Por isso mesmo, avisa-se já o estimado leitor que se trata de um aterrador acontecimento, possivelmente gráfico, suscetível de causar trauma. Se assim, for, como se faz nos anúncios, filmes, tudo, aqui fica o disclaimer (isenção de responsabilidade da nossa parte). Tirando o introito, aqui vai.

Estavam numa sala e eram cinco. Todos usavam roupas leves pois era uma daquelas noites calmas de verão. Calmas e quentes. Tinham a sala com as janelas abertas e não se ouvia nada além do ruído de uma ou outra cigarra que ao longe fazia barulho. Continuavam todos na sala, uns a olhar para os outros. Havia pouca luz na sala. Não se viam bem os rostos. A pouca luz tinha um propósito fundamental no decorrer da narrativa. Queria evitar-se a todo o custo que se pudesse dar conhecimento da presença destes homens. Nenhum deles queria que a luz atraísse companhias indesejadas, ou seja, os mosquitos. Sim, já imaginaram o que é ter uma horda de mosquitos a atacar atraídos pela luz. Péssimo.

Tinham entrado na sala às 10 da noite. Desde aí, ninguém se tinha mexido. Cada um deles sentado na sua cadeira acolchoada, olhavam-se com desdém. Não se podiam considerar inimigos, mas também não eram propriamente chegados. Havia muita tensão no ar. A sorte era o facto de a luz estar apagada. Via-se dez brancas dos olhos. Não se via mais nada. Dentes? Não… ninguém sorria.

As personagens da história eram o Paulo, o Maneca, o Fagulho, o Tixo e o João. Todos moradores na mesma área. Todos conhecidos durante o dia. Em cima da mesinha no meio das cadeiras, garrafas de cerveja. Umas vazias, outras cheias. E todos olhavam nervosamente. Como se estivessem a fazer algo altamente ilegal, como se tivessem cometido um crime. Esperavam.

Todos esperavam algo. Não vou aqui reproduzir os pensamentos de cada um, mas cada um pensava em algo diferente. Os negócios, a casa, a família, as dívidas, os filhos, a conta da luz… pensamentos vagos.

Todos estavam ali por uma razão. Aguardavam a chegada do sexto elemento para que o círculo se fechasse e pudessem finalmente levar a cabo o intuito que os trouxera àquela sala escura, todos. Todos e nenhum. Às vinte e três horas em ponto, o sexto elemento bateu à porta. Chamava-se Basílio. Era um tipo franzino que estava sempre a rir. Era o único que ria. Todos os outros estavam nervosos. Todos tinham alguma coisa a perder. Via-se agora, em cima da mesa, notas de cinquenta e cem euros. Algo muito irregular estava para acontecer e não havia forma de acabar aquilo.

Basílio trazia uma caixa grande, coberta por um pano. O homem poria essa caixa em cima da mesa, ao lado das notas e ao lado das garrafas de cerveja vazias. As cheias já tinham sido postas no frigorífico. No verão, convenhamos, cerveja quente não tem piada nenhuma. Bem, nem no inverno ou em qualquer uma das outras estações.

A caixa era observada por todos, silenciosamente. Todos os homens, Paulo, Maneca, Fagulho, Tixo, João e Basílio olhavam a caixa. Um deles ria. Adivinhe-se qual era. Parecia meio tonto o homem. Era. Pela primeira vez, desde que chegaram, balbuciaram algumas palavras entre si e, ainda que não se percebesse muito bem o que diziam, quem devia percebeu a mensagem.

Basílio tirou o pano e abriu a caixa. As apostas estavam em cima da mesa. Uma dizia 4:15, outra 4.45, outra 5:00, outra 5:30 e assim sucessivamente até às 6:45. E em cada uma dessas horas, dinheiro. Não muito dinheiro mas algum. Suficiente para pagar a conta da luz. Basílio manteve o suspense e riu, mostrando novamente os dentes. Como se fosse o momento de catarse que nunca se repetiria. Fez tcharan e deixou que vissem a gaiola.

Todos abanaram a cabeça. Basílio não parecia tonto. Era. Então os homens estavam à espera de um galo para ver a que horas cantaria a ave e aquele que mais se aproximasse ganharia o dinheiro das apostas. Basílio, que tinha ficado encarregue de roubar um galo e trazê-lo para aquela sala ilegal, não sabe a diferença e traz uma pobre galinha com alguma idade, meio careca no pescoço que olhava espantada, com os seus olhinhos de galinha para todos os homens daquela sala e dizia mal da sua vida que julgava curta. Todos deitavam mãos à cabeça em desespero e alguma raiva. Basílio ria como se nada se passasse. Era o único que mostrava os dentes.

A galinha continuava a olhar todos com os mesmos olhos até que soltou um tímido meio cacarejo, expeliu dejetos sólidos (esta era a parte gráfica), avançou uns milímetros e voltou a dormir. Os homens continuavam em desespero. Basílio ria. Tonto.

Imagem de capa de Owen Jones.

 

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