22 Abril 2017      01:03

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FILOSOFIA DAS COISAS

"PARALELO 39N"

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Duas coisas nunca são iguais e a filosofia vai muito mais além. Bem, será porventura errado falar em coisa. É vago e disperso. Há nas coisas, a que é uma e a que é a outra, uma utilidade subjacente. Tudo isto se concretiza num grande saco de penas, uma almofada.
Não tem grande utilidade a não ser descansar a cabeça no final do dia, durante algumas horas da noite. Há almofadas, ou melhor fronhas com motivos diferentes. Algumas são estampadas, outras têm desenhos, até as há lisas. Mas o que conta são as penas lá dentro e o que seria útil era que essas penas continuassem no ganso que as perdeu.
Mas isto agora não interessa nada ao assunto. Vou filosofar sobre uma rocha em bruto, mármore na sua constituição que passava os seus dias inerte como qualquer outra pedra. Sem sentimentos aparentes ou os quais nunca terá, a pedra passava os dias só. Num monte, perdida fora da pedreira que a tinha acolhido durante milhares de anos. Nessa imensidão de tempo fora sempre um pedaço do tanto que era o resto da pedreira. Pois bem, tinham tirado, aproveitado, dado alguma utilidade ao resto das pedras, mas não a esta. Ter-lhe-ia magoado os sentimentos ter sido rejeitada. Teria ficado magoada se tivesse esses sentimentos. Era inerte e não sentia. Forte como uma rocha. Fria como pedra.
Não era, na paisagem, elemento que chamasse à atenção. Perdia-se no meio de tudo e quando alguém olhasse, nunca a veria, nunca repararia nela. Tivera ela sentimentos e choraria. Mas não chorava porque era uma rocha. Um dia, passando pelo mesmo caminho que tantos outros tinham já passado, olhando para o sítio onde ninguém tinha olhado. Pelo menos não com o olhar que aquele homem de barbas brancas, meio empoeirado, cabelo grande, despenteado, olhou. Era uma espécie de filósofo que, em vez de escrever tratados, esculpia pedras e transformava o bruto, inútil em algo útil, apreciado e venerado. A pedra, antes ou depois, era imortal. Não tinha vida, logo não morria. O homem que a olhava tinha vida mas a imortalidade não o tocava. Perpetuar-se-ia, vivendo nas rochas que esculpia.
Olhou a pedra com o olhar de filósofo e viu nela toda a filosofia de uma coisa, algo fazível que na sua retina já existia e se transformaria nas suas mãos, cobertas de pó branco. A rocha passaria, nas mãos do homem, a ser uma noiva vestida toda de branco e alguns tons rosa como só o mármore deixa construir. Morreu a rocha em fases correspondentes à construção da estátua. Findo o trabalho, no olhar filosofal do homem que a esculpiu e poliu como se fosse uma pena que contava uma história, morreu a pedra e nasceu a estátua. Era a de uma bela mulher, com ar triste e contente ao mesmo tempo, se isso fosse possível. Seria, na imaginação. Na utilidade que damos às coisas. A pedra era e continua a ser uma coisa. Diferente. Mudou-lhe a essência o criador.
Na casa do homem, anos após a sua morte, estavam, sob o olhar dos netos, uma estátua finamente cuidada, no canto, uma mulher seminua olhando o tempo que passava, apreciando as coisas que aconteciam, sem fazer nada. No outro lado, no sofá, nada mais além de duas almofadas cheias com penas de ganso que tinham já atravessado gerações.

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