26 Agosto 2017      00:48

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ESCADA ROLANTE

A luta começou voraz. Os dois homens agrediam-se mútua e violentamente, no fundo de uma escada. À volta deles, uma multidão de curiosos que sempre se agrega a qualquer confusão ou acidente pela mera curiosidade de ver o sucedido, acicatar os ânimos ou esperar o desfecho de uma cena que mais parecia retirada de um filme de ação. Ninguém sabia dizer se os homens se conheciam ou o motivo do início da violência. Ninguém tinha presente o exato momento em que começara. Nenhum deles estivera lá antes, nem ficaria lá depois à espera que as gotas de sangue que corriam do nariz de um dos homens e dos lábios do outro secassem no chão de azulejos gastos pelas solas dos sapatos de quem lá passava diariamente naquele local.

A escada ficava numa estação de metro subterrânea e era tão grande, tão alta e tão soberba quanto estreita que só cabiam pessoa e meia lado a lado. A escada. Minto. As duas escadas. Uma subia, enquanto a outra descia. O seu único propósito era, automaticamente, transportar passageiros de cima para baixo e de baixo para cima. Transportavam todos os que queria sair de onde estavam para irem para o lugar onde queriam ir. E nisto a escada passava o tempo, dia e noite. As pessoas que lá passavam eram, por vezes, as mesmas. Uns dias vinham vestidas de uma maneira, outros dias vinham vestidas de outra maneira. No verão tinham menos roupa, no inverno traziam casacos e água em cima de si e nos guarda-chuvas.

A luta continuava, sob o olhar incrédulo de toda a assistência e nem um movimento para parar aquela insanidade que não levaria a lado nenhum. Ao lado do ringue, um jornal caído e, do outro lado, uma pasta em couro, novinha em folha e apenas com algumas folhas dentro que, entretanto tinham saltado e notavam-se as marcas dos sapatos nelas. A escada continuava, automaticamente a levar gente para cima e trazer outras pessoas para baixo. As câmaras olhavam. Numa sala, onde as câmaras contavam aquilo que olhavam, um homem apercebia-se do sucedido e alertava as autoridades. Dois polícias fardados de azul escuro saltaram da cadeira onde bebiam café e liam um jornal igual ao que estava deitado no chão do fundo da escada. Correram do gabinete no cimo da longa, e digo mesmo longa, para terem uma ideia da distância, e começaram a descer as escadas, a correr, a ultrapassar as pessoas que desciam as escadas, sem se mexerem do lugar onde ficaram. Nestas escadas automáticas, uma pessoa não anda. Põe os pés num lugar e fica ali. A escada faz o resto do trabalho. É conveniente, de facto.

Para cima, a subir, as escadas estavam quase vazias. Quase. Não estavam completamente porque um homem, de sobretudo gasto e empoeirado, carregando uma mala de rodinhas decrépita, subia e descia, como em jeito de ritual. Ia para cima, arrastando a mala carregada de coisas valiosas, no seu entender. Ia subindo e falando sozinho. Os sapatos estavam gastos de subir e descer escadas. Parado no mesmo lugar, levava 5 minutos a chegar ao cimo. Lá em cima, arrastava a mala para o lado contrário e descia as escadas da mesma forma. Mais cinco minutos. E nisto passava o dia. Falava das coisas do mundo. Insultava os fantasmas que tinha. Sobrevivia numa escada que, metaforicamente dir-se-ia, era os altos e baixos da vida.

Lá em baixo, observando tudo, sem ligar muito, uma mulher sentava-se no fundo das escadas, ao lado, fora do caminho dos transeuntes. Bandolete no cabelo oxigenado. Casaco vestido e meias de lã. Sentada, a mulher transparecia o sofrimento nos seus olhos. Mordia a língua com o único dente que lhe restava no maxilar superior e reclamava de alguma coisa que não percebi. Agarrava uma beata gasta apagada e olhava o pente. Num espelho, via-se. Talvez visse o seu passado, talvez se reconhecesse na loucura. A mulher olhava e mordia a língua enquanto falava sozinha. Ao lado, uma mala de rodinhas.

A luta era agora dissipada pelos dois polícias. A multidão que assistia curiosa e rejubilante desaparecia velozmente, como se não fosse nada consigo. Os homens continuavam a tentar agredir-se, na crença de que a agressão resolve tudo. Perderam já a luta, antes mesmo de a começarem. A polícia pôs os dois na escada e levou-os. O gabinete esperava-os. A sala queria saber o motivo do desacato. As caixas queriam multas. Já não havia ninguém. No chão, o jornal, as gotas de sangue que secavam. Ao lado, encostada à parede, a mulher. A subir e a descer escadas, o homem. No cimo das escadas, um terceiro homem que tentava ver o fundo das escadas, procurando o homem e a mulher, sem nunca se cruzar com eles. Vinha, esticava o pescoço, baixava-se, tentava ver onde estavam, abanava a cabeça, tocava três vezes no corrimão e ia ver o Sol nos dias em que não chovia. Passava o tempo nisto.

A escada subia e descia, automaticamente. A estação fechava à meia noite e meia.

Imagem de capa de unfinishedman.com

 

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