17 Junho 2017      12:02

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EM BANHO-MARIA

"PARALELO 39N"

Conduzia um Lamborghini verde alface e usava umas jardineiras. Já ninguém usava jardineiras de ganga com all-stars, daquelas jardineiras que não chegavam bem ao fundo porque estavam dobradas. O carro era baixinho, mas andava a uma velocidade que, comparada com a de um caracol, multiplicada por uns bons milhares, dava muito tempo.

Ia o homem a acelerar na autoestrada, dando-se com a aproximação de um caracol que a atravessava em passo de, pasme-se, caracol, vê-se obrigado a travar a viatura a fundo, deixando não só um rasto de borracha no alcatrão já de si escuro, mas também uma nuvem de fumo e cheiro a pneu queimado. Safou-se o caracol. O carro tinha, de facto, bons travões.

Ao lado do homem, a mulher, valente mas assustada com o decorrer do acontecimento, sentia a pulsação a aumentar mediante a ideia de poder sofrer ali um acidente. Sortudos, levam os cintos de segurança que esta coisa de se armar em herói não dispensa o uso sempre do cinto mesmo que sejam em curtas distâncias. Nunca se sabe quando aparecerá um obstáculo e assim ditam as regras de condução. O homem tinha carta, até de pesados e conduzia bem. A mulher fazia boa companhia e em termos de co-pilotagem não distraia o homem: nem os seus lábios carnudos assim ao jeito de Kardashian, digamos, botox, tiravam o olhar dos caracóis que poderiam aparecer na estrada.

E bem, não era mais do que uma relação de amor entre os dois que, ao jeito de banho-maria se ia construindo, como o pagamento do Lamborghini. Esse também estava assim, a modos que, em banho-maria. Quem não gostava muito era o homem do stand de automóveis que lho tinha vendado.

Passada a cena do caracol que, em vez do rasto normal, deixava a transpiração devido àquele momento de aflição e se escondeu na casa, o casal do carro baixinho, das all-stars, do botox, das jardineiras e do silicone em realce, continuavam a conversa. Palavra puxa palavra, tira daqui, põe dali e o assunto centrava-se agora, nos planos do casamento. Coisas que poupar a vida a um caracol causam na vida de dois namorados cuja relação está em banho-maria. O casamento também assim estava. Tudo meio parado. Ela queria, ele estava sem fundos para suportar o casamento na quinta. Só o vestido que ela queria custava mais de 5000 euros e o arrendamento da quinta onde ela tinha sonhado casar ficaria aí por uns 4000, sem catering. Contando com isso, saltava-se aí para uns 50000 bem à vontade, receção singela. Para tal gasto, teria de vender o carro que não tinha pago.

Ainda a polícia viria atrás dele, pensava. O melhor mesmo era continuar a engonhar nas desculpas com o homem do stand, com a noiva, com o patrão, com os vizinhos, com a família. Enfim, deixar tudo em banho-maria, como convém. Safara-se o caracol no meio da aventura. Não se safou o homem dos pneus que ficou à espera do pagamento daqueles novos que teve trocar por causa destes que ficaram carecas.

E, fervendo em água morna e lenta, assim ia o homem, mudando de jardineiras por outras iguais, fugindo aos compromissos e pensando, à noite, nos sonhos, nos caracóis que tinham uma vida feliz. A mulher, ao lado, em jeitinho carinhoso, lá lhe ia dizendo o que queria, na esperança que no subconsciente do homem se tornasse realidade o seu desejo. E, mal sabia ela que mais sabia ele a dormir do que ela acordada. De nada lhe serviam as falinhas mansas. De nada lhe serviam os jeitos de sedução. O homem, habituado a estas pressões, lá lhe ia dando uns beijinhos e deixava-a acreditar no que queria. Fosse como fosse, nada dura sempre.

Um dia veio o homem do fraque, casaco de grilo e, acompanhado do caracol que os denunciou, levou o carrinho, despejou a casa e nem as all-stars se safaram. Foi tudo a leilão. Restou-lhes umas latas de mão de vaca com grão já preparado e um tachinho, onde iam fazendo as refeições em banho-maria, como tinham começado a sua história.

 

Foto de David Kaiser para gtspirit.com

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