28 Julho 2016      00:08

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DIZER COBRAS E LAGARTOS

"CIÊNCIA NA SUA VIDA"

A expressão dizer cobras e lagartos é utilizada, na linguagem popular, como sinonímia de maledicência e pronúncia de comentários injuriosos.

A escolha destes animais para dar corpo à expressão não foi aleatória. As cobras e os lagartos são, frequentemente, malditos, esconjurados e difamados…

A ofidiofobia (medo de cobras) é uma das mais prevalente fobias no mundo. A Biologia defende que a ocorrencia deste facto demostra que existe uma memória genética, para este tipo medo, que condicionou a evolução da nossa espécie. A capacidade de perceber a aproximação de cobras venenosas tornou-se essencial para a sobrevivência dos primeiros homens que povoaram o nosso planeta. Os menos incautos, aqueles que fugiam ao avistar uma cobra venenosa, eram os que sobreviviam e deixavam descendência.

Apesar de esta atemorização estar gravada na nossa memória genética, nos tempos atuais, já temos conhecimento para ver além do nosso instinto e, usando a razão e os conhecimentos de Herpetologia (ciência que estuda os répteis) diferenciar as cobras e lagartos que nos podem atacar dos que são inofensivos.

Tomar a parte pelo todo já não se justifica quando sabemos que estes animais são essenciais ao equilíbrio dos ecossistemas. Eles controlam o crescimento de populações que podem tornar-se pragas agrícolas ou transmitir doenças: os insetos (baratas, gafanhotos) ou os roedores (ratos, toupeiras).

No Alentejo Litoral não são muitas as hipóteses de nos cruzarmos com cobras ou serpentes venenosas pois, nesta região, só existem 3 espécies que possuem dentes inoculadores de veneno: a cobra rateira (Malpolon monspessulanus), a cobra de capuz (Macroprotodon cucullatus)  e a víbora cornuda (Vipera latastei).

No entanto, embora sejam espécies venenosas, a cobra-rateira e a cobra-de-capuz não podem considerar-se perigosas para o homem, uma vez que os seus dentes venenosos se situam na região posterior dos maxilares. Este facto (aliado ao reduzido tamanho da abertura bucal, especialmente na cobra-de-capuz) torna a inoculação de veneno pouco provável em caso de mordedura.

Desta forma, a única espécie potencialmente perigosa para o homem é a víbora-cornuda porém estas serpentes não atacam pessoas. Só o fazem quando se sentem ameaçadas. A sua mordedura, em geral, não conduz à morte, a não ser que o vitimado seja idoso, uma criança ou se encontre debilitado fisicamente.

Distinguem-se, com facilidade, das cobras, pois as víboras possuem cabeça triangular e olhos com pupila vertical.

Outros répteis, como os lagartos que deambulam pela nossa região, apesar de não terem fama de venenosos, como têm, injustamente, grande parte das cobras, causam repulsa pelo seu aspeto.

Alguns são confundidos com cobras como acontece com os peculiares fura pastos (Chalcides bedriagai) e licranço (Anguis fragilis) que, apesar de serem lagartos, rastejam. O primeiro tem as quatro patas tão atrofiadas que é incapaz de se deslocar com elas e o segundo nem membros locomotores tem.

Embora a desconsideração, de que são alvo estes animais, seja consequente da sua fealdade, ocorrem dois lagartos no nosso território capazes de impressionar os estetas mais rigorosos. Revestem-se de cores vibrantes, conjugando em padrões muito apelativos, o azul turquesa, o amarelo e o verde alface. São o lagarto-de-água (Lacerta schreiberi) e o lagarto-ocelado (Lacerta lepida), mais conhecido por “sardão”.

O lagarto de água, além de exibir uma singular beleza é um endemismo ibérico, ou seja, em todo o Mundo só existe em Portugal e em Espanha.

O sardão é impressionante não só pela sua exuberância mas também por ser o maior lagarto que existe no nosso país, podendo atingir cerca de um metro de comprimento.

Muitas mais cobras e lagartos podiam ser ditos pois o nosso território é profícuo em répteis. Inócuos, cooperantes. Também podiam ser ditas cobras e lagartos de quem ataca estes animais, matando-os sem qualquer motivo válido.

Quando terminar a leitura desta crónica diga também cobras e lagartos. Do Alentejo Litoral. Pelo menos cinco. Ora tente…

 

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