7 Junho 2017      10:52

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DESACORDO CLIMÁTICO

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América

São inúmeros os modos insidiosos de manifestação de arrogância sobre a problemática das alterações climáticas. O mais recente prende-se com a decisão anunciada por Donald Trump que visa a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris.

Todavia, a retirada dos EUA do Acordo de Paris pode marcar uma nova era na agenda ambiental do planeta, a meu ver bem mais promissora.

Uma análise criteriosa às negociações, que antecederam o compromisso assinado e firmado por 195 países em 2015, revela que praticamente todos os pontos fracos e decepcionantes no Acordo são resultado da ação do lobby americano, que com astúcia trabalhou desde 2009 para garantir o sucesso de uma ardilosa estratégia de enfraquecimento do Acordo internacional.

Factualmente, foi o lobby petrolífero americano que exerceu pressão para que houvesse um Acordo Internacional e não um Tratado Internacional sobre mudanças climáticas. Foi, ainda, este grupo de pressão que assegurou que os compromissos assumidos no Acordo de Paris não tivessem mecanismos vinculativos. O que na prática significa que os governos nada têm a recear caso ignorem ou não cumpram as metas e os compromissos a que se obrigaram com a assinatura do Acordo.

Também, se deve ao lobby petrolífero o facto de o Acordo comprometer os governos a manter o aquecimento da temperatura da Terra abaixo de 2 graus celsius, em vez de uma meta muito mais ambiciosa e segura de 1,5 graus.

Na realidade, para manter a evolução da tendência do aquecimento global abaixo de 1,5 ou de 2 graus celsius – objetivo declarado do Acordo de Paris – a economia global precisaria de suprimir o uso generalizado de combustíveis fósseis até meados do século. Dito isto, não se estranha a tenaz obstinação da gestão Trump em desmantelar a peça central do compromisso dos EUA no Acordo de Paris, o Clean Power Plan do ex-presidente Barack Obama.

O que há a lamentar nesta intenção é a recusa do Presidente Donald Trump em aceitar a dura realidade científica: a mudança climática é um fenómeno real que está a acontecer motivado pelo aumento crescente das emissões globais de gases que contribuem para o efeito de estufa. E, neste particular, os EUA são responsáveis por 15% das emissões globais, o segundo maior contribuinte mundial para o fenómeno do aquecimento global, imediatamente atrás da China.

As boas notícias são, ao contrário dos EUA, tanto a China como a União Europeia já manifestaram disponibilidade para assumir a liderança no combate ao aquecimento global, o que secundariza o papel reservado aos EUA.

Muito provavelmente, poderão ter sido criadas condições para que o mundo se mobilize entorno do enorme desafio global que a transição energética representa e que para ser vencido exige uma forte cooperação e um empenhamento sério e honesto de todos os países, particularmente dos mais industrializados.

Por fim, recorro às palavras sábias e sensatas proferidas pelo secretário-geral da ONU António Guterres: “Se um governo coloca em causa a vontade e a necessidade mundiais, é uma razão para todos os outros se unirem ainda mais”.

Imagem de capa de theatlantic.com

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