30 Maio 2017      16:05

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DEITADOS NAS DUNAS, ALHEIOS A TUDO

O tema Dunas, dos GNR, acompanhou a minha adolescência intensificando, com os seus acordes, os volúveis e exacerbados sentimentos envolvidos nos amores e desamores característicos desta fase da vida.

Trauteei também, com alguma frequência (demasiada confesso), os versos biombos indiscretos de alcatrão sujos rasgados por cactos e hortelãs… Fazia-o sempre que constatava, a cada regresso a casa, que tinha o biquíni, a toalha de praia ou os pés sujos de pegajoso e nauseabundo alcatrão.

É verdade!... Nas praias onde cresci o alcatrão visitava amiúde os areais sendo distribuído, pelo mar, ao longo das praias da costa situada a sul de Sines.

Das más recordações que envolvem hidrocarbonetos só tenho uma pior: julho de 1989, derrame de cerca de 4.500 toneladas de crude na sequência de um rombo no petroleiro Marão, que embateu no terminal petrolífero em Sines.

Mar negro. Trevas e morte para centenas de espécies. Verão soturno e sombrio, fulminado pelo negrume que este desastre trouxe à economia local desde há muito sustentada pelo turismo e pelo mar. Um rasto de escuridão e tormento de Sines ao Almograve.

Cenário bizarro, montado no sudoeste alentejano, nesse verão lúgubre em que o sabor a água do mar só senti nas minhas lágrimas…

Este dantesco acidente veio reforçar a necessidade de criação da Área de Paisagem Protegida do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, o que aconteceu em 1988, e até hoje, apesar da pressão multifatorial a que esta região está sujeita, temos conseguido manter a Costa Sudoeste na Lista Indicativa a Património Natural da Humanidade da UNESCO.

Voltamos no entanto, desde há cerca de um ano, a ouvir falar de hidrocarbonetos e da ameaça para a nossa região que a sua exploração implica.

A hipótese que se levanta atualmente em Portugal de se poder avançar com a prospeção e exploração de hidrocarbonetos vai em contra corrente com a recomendação de que o sistema energético do planeta deve deixar de lado os combustíveis fósseis.

 Este “rasgo de esquizofrenia” pode inviabilizar os compromissos políticos nacionais assumidos em 2015 na Cimeira do Clima em Paris.

Portugal foi dos primeiros países a assinar o Protocolo de Quioto, há já 20 anos e, tendo ratificado este acordo, assumiu-se desde então como paladino do combate às alterações climáticas.

Posto isto, é com alguma incredulidade que recebemos as notícias, veiculadas pela comunicação social, que dão conta de que, por estes dias, se trocam acusações no Parlamento português, sobre qual ou quais foram os partidos responsáveis pela atribuição das concessões a potenciais exploradores de hidrocarbonetos. Digladiam-se os deputados a discutir se devemos ou não proibir novas contratos de prospeção em território nacional ou se é sensato preterir a oportunidade de conhecermos os nossos recursos naturais. Outros batem-se pela ideia de mantermos as reservas (se existirem) não exploradas, não permitindo novas concessões de exploração.

No meio deste nó górdio a autarquia de Odemira interpôs uma providência cautelar para travar o furo do consórcio Eni/Galp na bacia do Alentejo exigindo a rescisão do contrato para a costa de Aljezur e tentando impedir que se avance com o primeiro furo de prospeção (já autorizado) ao largo do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina.

Os tribunais consideraram válidos os argumentos da providência cautelar apresentada o que não invalida que o furo se venha a concretizar. Os tribunais decidirão se há razões válidas (ou não) para cancelar este contrato após a auscultação das partes envolvidas: o Estado (como a Direcção-Geral dos Recursos Marítimos, o Ministério do Ambiente e o Ministério da Economia) e o consórcio Eni/Galp.

Poucos foram os que deram o alerta para esta situação celeumatica, alguns são os que atualmente se mobilizam para reverte-la, muito terão que estar vigilantes (e atuantes) para que não sejam tomadas decisões lesivas para a nossa região e para o nosso país.

Vivemos num tempo em que nenhuns poderão ficar deitados nas dunas, alheios a tudo. 

Mesmo tomando medidas que concorram para um saldo neutro de carbono não será,  certamente, a fazer a apologia da queima de hidrocarbonetos que conseguiremos atingir um equilíbrio entre as emissões globais de gases com efeito de estufa e os seus sumidouros.

Também não é pelo facto de se cancelar um contrato que se vai impedir que as áreas de concessão permanecem abertas deixando espaço para que sejam assinados novos contratos no futuro.

Continuemos a deitar-nos nas dunas lindas do sudoeste alentejano, sim. Mas atentos a tudo!…

Imagem de capa de energydesk.greenpeace.org

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