9 Setembro 2017      00:47

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CABEÇA DE ALHO CHOCHO

"PARALELO 39N"

Nem mais. Cabeça de alho chocho. Sem rodeios. Cabeça. Alho. Chocho. Nem mais nem menos. Confesso que nunca percebi muito bem a origem da expressão nem porque se poderia chamar a alguém cabeça de alho chocho. Mas existia. E era, de facto, uma cabeça de alho chocho. Ora, depois de uma extensa pesquisa, destinada a escrever este artigo, descobri, eu próprio, narrador, através de uma coisa chamada Google que não me ajudou em nada, nada. Isto para dizer que não descobri a origem. Se alguém souber, pois muito agradeço que aqui deixem o testemunho.

Descobri, no entanto, que significa pessoa distraída, esquecida ou que, nesse momento em que a coisa aconteceu, não foi particularmente feliz. Enfim, um rol de coisas tão diversas como infelizes na catalogação de alguém. Talvez tenha surgido com a seguinte hipótese. Aqui fica a minha teoria. Preparem-se, é sobre uma pessoa que nunca conheci.

Mirompeu era o seu nome e era cabeça de alho chocho. Ou pelo menos, essa alcunha foi-lhe atribuída em virtude e na sequência dos acontecimentos infelizes que tiveram lugar na sua vida. Mirompeu, cabeça de alho chocho, devia ter aí uns 18 anos quando as hormonas começaram a mudar de lugar e a arranjar problemas. Era tardio. Mesmo assim, a uma velocidade estonteante, tornara-se, em poucos meses, num jovem descomprometido em busca de uma donzela, preferencialmente desde sempre descomprometida. Se não fosse, estava disposto a duelos com o pretendente para conseguir essa donzela, desde que sentisse nela a química necessária para se apaixonar.

Ele deve ter vivido aí no início do século, logo no início mesmo, quando ainda não se sabe se é um ou se é outro. Vivia num sítio simples, uma aldeia daquelas do princípio do século. Confesso que não sei bem descrever porque não vivi nessa altura e não quero criar altas expetativas acerca da descrição. Sei que não tinha grandes condições sanitárias. Era mais vaso. Vaso, balde. Mirompeu tinha um balde de cinco litros. Manhã cedo, um dia, vestiu a vestimenta, encheu o cabelo de brilhantina, mais do que o recomendado, desafiando as leis da física. Foi, depois limpar o curral das bestas, tarefa que não era agradável mas obrigatória. Acabou o serviço, perfumado, e passou o poial no caminho da rua principal da aldeia. Ia ao mercado, dedicado em se apaixonar.

Botas cardeadas, enlameadas, deixando a marca na própria lama, eternizando os passos do apaixonado. Caminhou e parou na tabanca dos vegetais. Frente à velhota desdentada. Entre nós, ela devia ter uns 35 anos. Era desdentada porque os dentes tinham caído e parecia uma velhota porque ninguém se tinha lembrado de inventar os cremes de reparação da epiderme facial. Mas ela não interessa. A filha, bem mais nova, 16 anos, donzela meio comprometida, destinada ao Zé das Alfaias, era o foco de interesse. Mirompeu tinha até colhido no meio do caminho uns cardos que estavam em flor para lhe oferecer. Na sua ideia, era aquela a mais linda das flores. Roxa, como ficariam os olhos deste, depois do sucedido.

Ora, chega-se o homem ao pé da banca e, sem ver mais ninguém, brilhantina a desafiar as leis da física, perfumado de estrume e convencido do amor de bela Felisbela (era esse seu nome), não viu mais ninguém. Não viu a mãe, não viu o pai. Não viu o Zé das Alfaias e o grupo de arruaceiros que o acompanhavam. Não viu muito nos dias seguintes também. Dirige-se a Felisbela, infeliz ideia e declarou o seu amor. Distraído, não viu ninguém e muito menos avaliou a situação.

A mãe da donzela, furiosa, agarrou no molho de alhos que estavam já passados, chochos e continuamente bateu com eles na cabeça de Mirompeu. A Felisbela chorava como se as agressões fossem a si própria. Zé, o pai e os arruaceiros entram de pancada ao pobre apaixonado, até que o amor que sentia se transformasse numa coisa roxa, como todas as partes do corpo do pobre rapaz. Pararam algum tempo depois, quando já não havia mais por onde bater. A fúria da idiotice que tinham em recorrer à violência lá abandonaram as suas cabeças, deixando-as vazias de novo, e não agrediram mais o apaixonado. Não todos, a mãe, ainda furiosa continuou a correr atrás de Mirompeu e a dar-lhe com os alhos na cabeça, já cheios de brilhantina. Estes, já não os vendia.

Perante toda a aldeia, o rapaz passou a ser cabeça de alho chocho. Nunca casou e nunca perdeu a alcunha. E, nesse dia, a frase do poeta de que o amor é dor que dói e não se sente, perdeu alguma credibilidade.

 

Imagem de kitchenstewardship.com

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