26 Junho 2016      11:16

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BIRRENTOS E INSUPORTÁVEIS

"INCONSTÂNCIAS"

Muitas serão as críticas que espero após o artigo que estou prestes a escrever. Talvez daqueles que acham que melhor que eu conhecem aquilo de que vou falar, talvez daqueles que não se apercebem do movimento contínuo da História. Como sempre, englobo-me nesta categoria dos birrentos e insuportáveis, até porque nem poderia ser de outra forma: todos conhecem a Inês na sua terra como a insuportável, irritante rapariguinha que tem que dizer sempre alguma coisa. No entanto são apenas manias de escritor: as palavras jorram, saltam-nos pela boca e depois é tarde para as apanhar. 

Para uma estudante de História A como fui é-me fácil observar a forma como as políticas sempre seguiram, não um intuito 100% desprovido de intenção pessoal mas sim uma birra por poder ou pela perda deste. Que dizer das conhecidas colonizações? Que dizer da noção de supremacia relativamente a algumas religiões ou raças? Como argumentar o Holocausto? – Torna-se realmente difícil viver num mundo em que agimos como uma criança de cinco anos quando os pais não lhe querem comprar o novo brinquedo do mercado. Isto obviamente que seria tudo muito simples se, no meio das guerrilhas de poder onde as figuras desse poder nunca chegam sequer a pisar terreno, não existissem vidas. Não existissem pessoas que morrem. Se não é de guerra é de fome, se não é de fome é de sede, se não é de sede é de princípios. Nunca contamos com os últimos mas eles existem e são talvez até em maior número que os restante: os óbitos por princípios. Sei que, se vivesse noutra época ou noutro local, eu faria parte desses óbitos. Repito isto a quem comigo convive diariamente a cada nova discussão onde sou ofendida pela minha posição, a cada novo argumento, a cada novo raciocínio que, na maior parte das vezes, não vai contra as pessoas, mas contra “certas” pessoas. Contra certos lobbies , contra certas contas bancárias desonestas e marcadas pelo sangue alheio. Contra certas actividades cuja birra pelo poder é tão grande que se sobrepõem massivamente a princípios e pessoas que morrem. É também destas birras que vimos nascer esta semana o Brexit. Mas, sejamos sinceros, aqui as birras tiveram uma certa razão. A responsabilidade não poderá ser só da Inglaterra quando a União Europeia funciona mais como um monopólio do que como, realmente, uma união. Talvez se perguntarmos no nosso próprio país se devemos sair a maior parte da sua população também responda convictamente que sim e qual de nós a poderá culpar?

A verdade é que a União Europeia começou por ser uma boa ideia, mas ao longo do tempo tornou-se um fardo para alguns países. A pressão e as ideias não são unânimes e muito menos transversais. Os decretos fazem-se só para proveito de alguns e as mais-valias acabam por chegar aos mesmos. Os objectivos foram ultrapassados pelas birras pelo poder e pelos insuportáveis novos-ricos, frustrados das suas perdas anteriores. Na verdade, nenhuns desses objectivos foram realmente concretizados se é que se trabalhou sequer para essa concretização. Assumo a dificuldade que deve ser gerir birras ente 28 estados membros, mas não assumo, de forma alguma, a falta de compromisso para com o objectivo traçado. A partir do momento em que traçamos um objectivo sabemos que deveremos trabalhar para ele, custe o que custar- aceitamos um compromisso e devemos tentar lutar para estar á sua altura. Irresponsabilidade, diriam alguns, regalias a mais, digo eu.

Aquilo que não se passa na nossa presença deveria sempre deixar-nos desconfiados. Eu sou da opinião daqueles que dizem que nós, peões num jogo de birrentos, não sabemos “da missa a metade”. Qual de nós, por exemplo, sabe quanto recebe um euro deputado? Um euro deputado recebe, só de subsídio mensal, 6200 euros, tirando os 4 mil euros para despesas pessoais, os 21 mil euros para staff, e as despesas de viagem onde lhes pagam 0,50 cêntimos por quilómetro. Por este ordenado não deveriam eles fazer mais? Precisam realmente de todo este dinheiro? E se metade deste fosse para verbas? – São estas questões que nós devemos fazer quando ofendemos a Inglaterra sem pensar no outro lado. Logo nós, que vivemos num país que não tem o poderio da Inglaterra e que todos os anos ouvimos falar em crise. Logo nós, que deveríamos saber melhor, mas que estamos demasiado ocupados com o jornalismo do Correio da Manhã, a vida privada do Cristiano Ronaldo e um microfone que pagámos com o nosso ordenado porque somos nós que damos audiência ao jornal Correio da Manhã (pois, caro leitor, se eles subsistem é porque muitos ainda compram o jornal, não se faça agora de santo).

A verdade é que o Reino Unido nunca foi propriamente um membro europeu. A verdade é que muitas das leis de admissão foram engolidas por eles e a verdade é que tem tanto de compreensivo como de hipócrita. Pessoas que dialogam acerca disto dizem-me que foi uma medida tomada devido a um certo grau de preconceito, racismo e xenofobia. Que foi por uma questão de fechar fronteiras e nenhuma outra. Se o foi todos nós temos de pensar para nós o quanto não desejamos isso para Portugal aquando as vagas de refugiados, o quanto não dizemos mal do brasileiro ou do ucraniano que trabalha connosco, o quanto não olhamos ainda, de lado, o negro porque achamos que ele é um bandido. A verdade, caro leitor, é que somos todos hipócritas. Apontamos dedos a atitudes que nós próprios temos. A atitudes que, se Portugal não fosse um país miserável neste momento, nós mesmos quereríamos tomar. Como apurar, então, culpas? As birras sucedem-se e, chorando, dizemos “Foi ele!”.

Mas não foi ele. Fomos todos nós. Até aqueles que se calam, até eles têm culpa, porque se calam! Deixamo-nos controlar, aceitamos viver de joelhos sob a tutela dos birrentos e insuportáveis senhores poderosos. Caímos nas suas teias planeadas com afinco e risos sarcásticos e continuamos a chamá-los “Ai senhor deputado”, “Ai senhora presidente”.

O Reino Unido apenas bateu na mesa, embora sem muita consideração e sem esperar uma solução solidária. Uma solução não que cause caos, mas que tente levar a uma reforma da União Europeia. Mas para isso é necessária a humildade suficiente e a preocupação suficiente para não voltar a deixar membros birrentos e insuportáveis no seu ego tomarem as rédeas.

Por agora resta-nos esperar – que saibamos ser melhores, que aqueles que nos governam tenham a noção de que a História tende a repetir-se e que o período pré União Europeia é algo que não queremos voltar a viver. 

 

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