25 Junho 2017      13:41

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BEASTS OF THE SOUTHERN WILD

"DESVIOS E RESPECTIVOS ATALHOS: FILMES, LIVROS E DISCOS"

Beasts of the Southern Wild (2012), Benh Zeitlin

 

Da estranheza (para o caso, sensação muito próxima do incómodo) ao inacreditável encantamento. Eis o percurso que nos é proposto por Benh Zeitlin em Beasts of the Southern Wild. E que título admirável este, com entrada directa para a galeria dos melhores de sempre.

Uma obra situada num dos locais cinematográficos por excelência, o tal Sul selvagem da América. Lugar de rostos notáveis e pântanos de vida multicolor (mesmo assim, se de algo sentimos a falta neste filme é da variedade de insectos). De gente peculiar, com modos alienígenas e pendores extravagantes. Lugar na borda do “abismo das emoções” – cito o entre aspas de cor e não sei de quem. A Louisiana ou o Mississippi podiam ser zonas húmidas e potencialmente habitadas de um Vénus no estado pré-sulfúrico.

Agora imagine-se uma criança, um pai, mais crianças, outros adultos, um dique, uma fábrica, um para lá e um para cá do dique. Do lado de cá, uma zona (de busca) de liberdade e de um desejo profundo de vida. Zona oposta a outras zonas – Stalker, de Tarkovsky, como exemplo óbvio de contraste.

Uma vida que incomoda por primitiva. Pela criança entregue a si própria. Pela tempestade que essa e o resto das crianças enfrentam com a responsabilidade dos adultos, pois a isso são forçadas.

Uma vida que encanta por não ter freio. Por não ser bela em sentido estrito nem vivida por seres belos, dentro do mesmo sentido – excepto as crianças, que apenas estão sujas, permanecendo belas em todos os sentidos. Pelo calor (que também é humano) que faz por eliminar a dor pela decadência do território a seguir à tempestade. Também pela mãe ausente da criança, apenas entrevista na cena do bordel com outro corpo e outro rosto (ou é o mesmo rosto?). E pelo Sul selvagem e as bestas que o habitam através dos sonhos das crianças –  repete-se: que o habitam.

Malick opta habitualmente, e focalizemos a atenção nos seus últimos filmes, por uma fragmentação da narrativa, dissipada nas múltiplas vozes off e na montagem não ilustrativa. O que faz com que se perca o olhar terreno – pela perda do espaço, ou, o que é preferível, da noção espacial –, então substituído por um olhar interior de alcance infinito (no sentido de divino).

Zeitlin também precisa de interioridade, não há dúvidas a esse respeito, e contudo trabalha na aceitação tácita das coordenadas desse olhar a que chamámos terreno, mas também pode ser chamado espacial. O olhar dos humanos. A montagem é sinuosa, curvilínea, todavia nunca ao ponto de se tornar críptica como em Malick. Há em Beasts of the Southern Wild uma ligação íntima e necessária com o lugar da narrativa. Estabelecendo o que acabámos de dizer como limite inferior do intervalo de raciocínio, porque não pode perder o espaço, em absoluto essencial para o projecto, isto é, por o tornar personagem, o olhar no filme de Zeitlin pode manter-se terreno. Essa escolha permite-nos um grau de identificação que se vai perdendo a cada novo filme Malick.

 

NOTA potencialmente impertinente (e quiçá maçadora): É uma obra cujas especificidades (montagem + estilo) remetem para Terrence Malick. Eis a estranheza antes do incómodo, a parte que corresponde ao sobressalto inicial. Mas quer algo diferente.

 

Imagem de nytimes.com

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