31 Julho 2016      09:25

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AOS QUE AINDA PODEM MUDAR O MUNDO

"INCONSTÂNCIAS"

Se não me sinto segura a culpa é da certeza que tenho um futuro a encarar – mostrar a cara ao monstro que sorri faz medo. Porque há, algures, um monstro e porque esse monstro gosta de sorrir quando me encara. Se tenho medo do futuro é porque tenho tempo para pensar no que me vou transformar. No que as minhas mãos, e os meus braços, e as minhas paciências e lutas serão capazes de trazer para o lugar da minha vida. Há, portanto, uma vida, a esperança de uma vida, o medo irracional de tão racionalizado que se transforma quase num direito de ter medo.

Está-me ainda inserido nas certezas próximas das absolutas que se as ruas se emaranharem em si e as palavras de quem me rodeia, o silêncio de quem me rodeia – qual deles o mais pesado? – não me reservarem um lugar tenho, por enquanto, um colo que não me vai julgar as lágrimas, uma mão que ao passar no cabelo não vai ignorar as vertigens do meu corpo que se debruça sobre o seu auto-abismo – quantos tens em ti? São pequenos ou demasiado grandes para a tua altura? – Tenho, em suma, uma casa para onde voltar que não me impõe quaisquer condições, mas me vai mostrar que ninguém tem o direito de me impor uma lei que não é a da minha consciência mais profunda e da minha alma mais escondida.

Para lá dessa consciência e dessa alma, o conhecimento. Um olhar distante que se faz próximo no mesmo instante em que me pergunto: “e se o meu direito a ter medo sumisse no mar revolto que são ideais que nem por quem os dita são compreendidos?”.

Quando vejo uma criança palestina dizer “(…) não sabemos o que é jogar, sorrir, ir à escola, aprender…” vejo, derradeira e ferozmente que algo muito errado se passa e o que sou eu foi suplantado pelo que é o mundo. – Não somos mais que animais? Com garras prontas a espetar, desenvolvidas em demasia para sujar as mãos com o sangue de inocentes mas básicas o suficiente para deixar, para sempre, uma marca na terra.

“Queria dizer para virem ver a nossa situação…isto é que é vida?”, perguntava novamente, e eu pensava que podia ser a minha irmã. Podia ser a minha irmã a estar mais desperta acerca do que é o sofrimento do que muitos meninos de 16 e 17 anos, talvez até de 20, podia ser a minha irmã a não ter direito a ter medo porque o único direito que conhecem é o da guerra. Da morte e do sangue para não morrer.

Ser portuguesa foi um acaso. Que chamem Portugal a este cantinho “á beira-mar plantado” já não o é tanto, mas antes de ser Portugal já era Terra e a Terra não é de ninguém. Não se move pelas leis de ninguém. A natureza, a evolução primária pertence à ingenuidade dos microrganismos e não à mão vil do homem que quer para si lotes e lotes de terreno que representam números e números numa conta bancária. O mesmo acontece com Israel. Não devem existir lados ou trincheiras mas a noção de que qualquer lado ou trincheira é uma ilusão humana movida por outra ilusão e ainda outra disfarçada dessa que se chama poder monetário.

Se não me sinto segura a culpa não é do som das armas em catadupa, quem nem conheço, e se não consigo dormir não é pela ânsia de temer que não tenha um futuro para lá daquela noite. – mas esses pensamentos serão os monstros sorridentes de muitas crianças israelitas e palestinianas. Muitas pessoas que não escolhem ser daqui que é Israel, ou dali que é a Palestina mas escolhem ser da Terra e não aceitar ilusões.

O sangue está nas mãos dos que vivem dos lucros da ilusão.

Aos que ainda podem mudar o mundo só peço um pouco de atenção.

 

Deixo-vos uma sugestão musical aqui.

 

 

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